O estudo do comportamento do Homem perante a morte tem-se revelado como uma das investigações mais profícuas para compreender a mentalidade no tempo, as permanências, as evoluções e as rupturas, depois de Philipe Ariès, em 1977, ter escrito um dos livros mais fascinantes da historiografia ocidental, «L'Homme devant la Mort".
Depois deste livro a história das mentalidades não foi mais a mesma - os estudos sobre o comprotamento do Homem perante as mais variadas situações que a vida lhe cria e na qual ele se insere multiplicaram-se, com especial incidência na famíla e nos laços que ela encerra.
Em geral estes estudos são levados a cabo por historiadores com maior ou menos formação sociológica, mas o certo é que, passe a redundância, a História é a ciência do passado, que nos ajuda a compreender o presente, é certo, mas uma ciência do passado. É esta sua característica que a distingue da Sociologia, o estudo das sociedades mais próximas no tempo e da Antropologia que, na longa duração, estuda a relação do homem em sociedade, mas também no seu habitat mais ou menos natural.
O certo é que estas ciências humanas e sociais que se entrecruzam, felizmente, cada vez mais, não estão preparadas para a análise do presente, do quotidiano; poderão ajudar-nos a compreendê-lo, mas a proliferação da do "positivismo factual" através da rápida, vasta e de fonte duvidosa da informação de hoje, obrigará os investigadores a concentrar, no futuro, a sua atenção na selecção das fontes e não na sua busca.
Este arrazoado que para aqui debitei vem da tentativa de perceber porque é que 2.000 e tal mortos (não é cinismo, não sei mesmo o número certo) nas torres gémeas, umas dezenas por mês no conflito do israelo-palestiniano, os que tombaram no Iraque captam mais a nossa atenção e incendeiam paixões na sua denúncia ou explicação que a previsão de 1.600 numa cheia nas Caraíbas, os milhares no Uganda e no Sudão e os milhões na África sub-saariana!
Os auto-proclamados "neo-liberais" apressar-se-ão a denunciar o empolamento da comunicação social das mortes no Iraque e no Médio Oriente enquanto os que se arregimentam contra os primeiros (os ditos de esquerda) denunciarão, precisamente, a comunicação social de empolar o 11 de Setembro ou terrorismo dos extermistas israelistas.
Se acreditamos no escasso valor que hoje se atribui à verdade nos órgãos de comnunicação, o certo é estas justificações de se lhes atribuir a responsabilidade de manipular os factos é tão insuficiente como obscurantista!
Com efeito, a deslocação do do zénite jornalístico da notícia para o comentário, retirou à comunicação social não a isenção (se é que ela é possível), mas a independência a que está obrigada, dando origem à indução de opinião, seja por incúria ou manifesta manipulação. No entanto, e não obstante o que disse, o alheamento, o desinteresse, o que não é notícia nem alvo de comentário é ainda muito mais hediondo que o que é divulgado.
Enquanto que os norte-americanos desvalorizam os mortos iraquianos, os europeus sobrevalorizam-nos, mas certo é que dos milhões que morrem anualmente não são sequer notícia.
Olhando para os recentes mortos nas Caraíbas, constatamos que a maioria da comunicação social deu nota. Digo bem, deu nota, nada mais, calcula-se que cerca 1.600 pessoas poderão ter perdido a vida por causa de uma cheia. Calcula-se e calcular-se-á pois nem sequer haverá condições para a remoção de escombros. Morrerem, ponto final, coitados! Não houve conferências de imprensa de Presidentes ou Primeiros-Ministros, nem comentadores acalorados na imprensa, rádio ou televisão ou nos blogues!
Porque é que isto é assim? Porque não há possibilidade de arremessar estas mortes contra ninguém que não seja a natureza; nem contra os americanos, nem contra os europeus, nem contra os russos, nem contra os israelitas, nem contra os palestinianos, nem contra a Al Qaeda, nem contra o PCP, nem se preparou previamente uma encenação que dela se pudesse fazer um espectáculo. Assim sendo, elas não servem a ninguém!
Poderemos então dizer que a morte tem um valor e tem um preço, tanto mais elevado quanto o a possibilidade de poder ser arremessada ou não contra alguém, de forma espectacular, capaz de audiências. Mas isto será novo. Não certamente, nem estes mortos caraibenhos são caso isolado. Representam para nós, os tais "senhores da democracia", o mesmo que os milhares que morrem com os aluimentos de terra nas favelas do Rio, o mesmo que o genocídio no Uganda, o mesmo que os que se matam no Sudão, o mesmo que os que morrem com SIDA e malária na África sub-saariana.
Mas não morrem, contrariamente ao que as notícias podem induzir, de causa natural ou em consequência de caaclismos da natureza!
Quem morreu nas Caraíbas, no Rio, no Uganda, no Sudão, em África, morreu por falta de alojamento minimamente condigno, por falta de condições de higiene, por falta de alimentação, por falta de cuidados médicos, por falta de instrução, morreu devido ao desdém a que os votamos.
Hoje a morte está em leilão, compra-se o que interessa para usar e deita-se ao lixo a que não serve ao poderosos do mundo. A morte leiloa-se diarimanete nas televisões, encena-se, qual arte performativa, há a que vende e é comprada e sobrevalorizada para conseguir mais-valia (em termos de poder, o que está em jogo, afinal?) e a que não vende é rejeitada, atirada para o lixo do mundo, esquecendo que para além de coveiros somos também os próprios contentores!
E esta gente gente que morre, que sabe que vai morrer, que está consciente da sua condenação, qual anátema da vida, revela uma elevação, um bom senso, uma serena espiritualidade, que nós julgamos impossível a seres que muitas das vezes sentimos de culturalmente inferiores, sem indignação proporcionada ao seu abandono, quase sublimando, na morte, a sua própria condição humana!
Da morte transaccionada pelos poderosos deste mundo, indígno-me. Da morte que é "lixo", que não serve para transaccionar, tenho vergonha.
Tenho vergonha porque democracia, antes de ser um voto por cada um, ou a liberdade de cada qual, é a necessidade do Homem em Homem se poder constituir, não um mas todos, sendo o respeito e a solidaredade com todos e por todos, em qualquer ponto do mundo, de qualquer credo ou nenhum, de qualquer coloração de pele, pelos Direitos Humanos e da Criança, proclamados em solenes Declarações Universais.
Feliz Dia da Criança!
Parece constituir-se já tendência o facto de tantos blogues referirem que agora, selecção feita, devemos estar todos com ela!
Ora, parece que nunca se colocou em dúvida o apoio dos portugueses aos jogadores que representam o país, antes o inusitado comportamento do seleccionador em entender que não tem de dar satisfações sobre o trabalho que desempenha, por nós pago, e o modo como encara as críticas que lhe são dirigidas.
Assim, dá-me ideia que este seleccionador foi e será alvo de tantas críticas como os anteriores e futuros pela simples razão de que nos preocupamos precisamente com o que é nosso - a selecção.
E não será por ser brasileiro que poderá ser dispensado de responder a questões que ninguém entende sobre o seu comportamento, nomeadamente a não convocação de Baía, aliado ao facto de ter insinuado há meses que pretende um bom ambiente no balneário. Se nunca o convocou como poderá constatar o que alguém lhe terá "bichanado"?
Sou portista, não será novidade para muitos, mas tento (nem sempre será fácil, aceito), não ser cego. Digo mesmo que tenho por Ricardo, Quim e Moreira o máximo respeito e considero-os bons guarda-redes, capazes de cumprirem a sua missão.
Mas não é isso que está em causa. O que me parece é que, tal como noutros assuntos, parece que se tenta calar antecipadamente quem não compreende a não convocação de Baía, tentando identificar qualquer crítica ao seleccionador como uma atitude anti-patriótica!
Desiludam-se. Quem da crítica pretende escapar não consegue reunir adeptos nem consensos. Fica só!
Se calhar ainda vou ver os que agora insinuam "o fim da crítica" serem os primeiros a criticar!
Estou com a selecção, claro, mas gosto de conhecer as razões que orientam as atitudes dos seus responsáveis, precisamente para me sentir solidário com as suas opções.
A mordaça nunca foi boa conselheira...
Há pessoas mais fortes, prontas para reagir positivamente perante qualquer imprevisto, e outras que, por medo ou por necessidade de tempo para racionalizar o impensável, o patético, são mais lentas por mais cautelosas. Dentro desta dicotomia não me enquadro em nenhuma!
O certo é que às primeiras imagens do tratamento prestado a presos iraquianos me fui abaixo. Não, não me borrei, fui-me abaixo. Fiz o que precisei de fazer, recolhi-me a mim e ao deixar-me sentir significâncias (se é que elas existem) para a prossecução de tais actos. E foi o que aconteceu a estas Ideias, interrompi-as, suspendi-as até sentir vontade de regressar. Esta é uma das maravilhas dos blogues (não esqueço o Luís Ene quando disse que um blog é aquilo que fizermos dele), a dimensão da liberdade que o meio nos confere sem estarmos sujeitos a qualquer pressão que não seja aquela que a nós próprios nos impomos ou que por via da amizade nos deixamos pressionar (o meu obrigado a quantos, por bem, me incentivaram a um breve regresso).
Mas, então, fui-me abaixo porquê?
Porque os americanos são estes e aqueles...? Porque não compreendo como é que uma pessoa intelectualmente honesta pode ainda hoje defender aquela invasão? Porque acho ridículo aqueles que defenderam o não porque não ou porque era a guerra do petróleo?
Não, a minha idade já não me permite ser assim tão susceptível!
No meio deste constrangimento ainda me consegui rir dos que pensaram que agora é que nos veríamos livres do Bush e do Rumsfeld como se tivessem sido eles os mandantes de tais crimes, ainda por cima num país onde a vidinha da Mónica e do Bill incomodaram muito mais a opinião dos media e dos senadores!
Não, o que me afligiu, desde logo, é que estando ou não de acordo com a invasão do Iraque. os EEUU representam no mundo a minha, a nossa se quiserem, maneira de viver, não uma superioridade moral (isso não me diz nada, como bem refere o Francisco J. Viegas), mas o que nós proclamamos junto do mundo, a defesa intransigente dos direitos humanos, em qualquer parte do mundo e em quaisquer circunstâncias.
O que aconteceu não é comparável a outros crimes contra os direitos humanos e contra a humanidade dos quais já fomos responsáveis, mas por isso mesmo, por termos conseguido conviver com o genocídio de Hitler, o do Estaline, o do Kosovo e nada termos feito para impedir o do Ruanda, qualquer acto, isolado que seja, desta natureza ainda, no particular caso, praticado pelos representantes da defesa dos Direitos Humanos deixa-nos a todos - os que preferem este regime de democracia representativa imperfeita a qualquer outro experimentado - impotentes para no futuro podermos erguer essa bandeira, a meu ver a única que merece e deve ser defendida e incrementada.
É que o que agora vem a público foi certamente abafado no Kosovo e na Bósnia donde surgirão diversas denúncias sem nunca se encontrarem provas como as de agora. Mas, certamente, tratou-se apenas de falta de provas, aquelas mesmas que agora estavam guardads para não serem divulgadas.
Mas, se este facto me abalou, a tentativa de perceber como é que há nossos concidadãos que se manifestam e tiram prazer através desse comportamento obriga-me a reflectir e a pedir que o façam, pois esse é que é o verdadeiro problema! Não o de saber se o Rumsfeld e o Bush vão ou não embora, se Blair aceita mais este frete, mas antes perceber quais os motivos que poderão levar cidadãos das democracias ocidentais a comportarem-se e a retirarem prazer deste género de comportamentos. O que é que falha?
Bom, o mais fácil será dizer que, ó pá, são uma minoria, há sempre gente assim, não podemos assegurar que todos se comportam civilizadamente! Pois não, eu sei, mas também sei que no nosso seio há cada vez mais ódios, mais fundamentalismos, mais racismo, até perante impotentes imigrantes que apenas para cá vêm fazer o que nós nos recusamos a fazer e por menos dinheiro!
Não, pá, não é isso, dirão outros, a nossa democracia está decadente, já não há valores e a juventude está perdida!
Deixemo-nos de vulgaridades. O que está em questão é como é que os aliados não se comportaram assim perantes os alemães que dizimaram a Europa e milhões de judeus e agora, pela merda do petróleo, diante de soldados mal armados e que quase não ofereceram resistência, perante um tirano que não causou mal ao mundo que não fosse ter dizimado milhares de curdos com o nosso beneplácito e que na altura nos abstivémos de condenar, isto aconteceu?
Encontro apenas duas explicações, mas que não passam de meros exercícios de pensamento e que muito grato ficarei se me corrigirem, já que o que é necessário é percebermos para melhor evitarmos, a tal prevenção:
1 - O regime de voluntariado das forças armadas;
2 - a educação dos nossos jovens.
1 - De facto a transição do regime de recrutamento de mancebos para o regime de voluntariado implicou, por lado, um maior profissionalismo e eficácia das forças armadas (mesmo sabendo da significativa percentagem de soldados ameriacanos que se recusaram a regressar ao Iraque após descando nos EEUU) , o fim da necessidade de justificar uma causa justa ao soldado e, por fim, a preparação psicológica que é dispensada poder ser única e exclusivamente vocacionada para a obediência estrita e cega a uma cadeia de comando, independentemente do contexto em que e onde exercerão as tarefas ordenadas.
2 - A educação dos nossos jovens, que tanta tinta faz correr entre os defensores do ensino tecnocrático, os da inserção social e dos outros que tentam a síntese destes dois extremos, têm esquecido (todos eles) de que já não é a escola o palco privilegiado para a passagem ou troca de valores entre professores e alunos. Nos EEUU, 75% dos jovens absorvem mais valores através da televisão do que através da escola (já aqui falei disso) e na Europa esse número ronda os 50%. Ora, numa época em que são os "Rambos", os "Exterminadores Implacáveis", os "Matrix" e por aí adiante, a formar a massa identificante dos jovens não admira que não haja família ou escola que possa passar valores cujos sujeitos não vêem correspondidos nos seus canais eleitos!
Neste contexto, não me admira que seja hoje muito mais fácil constituir um exército de 100.000 voluntários, em 6 meses, de "Stallones" e "Schwarzenegers" que são, sem culpa própria, autênticos "robots" de matar e mal-fazer!
Se alguma razão assiste ao meu pensamento, há que cuidar da instrução humana dos profissionais da guerra e, por favor, de uma vez por todas, assumir que não há projecto educativo que vingue se não encontrar nos meios audiovisuais uma correspondência dos valores que os Pais e os Professores pretendem transmitir.
Hoje, mais do que nunca, a televisão e os jogos de computador têm de ser considerados como uma ferramenta e um meio privilegiado de Educar e, entenda censura quem pretender, regulamentar e fiscalizar criteriosamente os valores que os conteúdos das estações públidas e privadas transmitem.
A isto chamo eu, tão-só, serviço público dos audiovisuais. E resto, bem o resto, se sobrarem recursos, o que não acredito, façam também!
Se reduzíssemos a população mundial à escala de 100 habitantes numa pequena localidade, distribuídas proporcionalmente ao panorama mundial, essa localidade seria mais ou menos assim:
57 asiáticos
21 europeus
14 americanos (norte e sul)
8 africanos
52 mulheres
48 homens
70 não brancos
30 brancos
70 não cristãos
30 cristãos
89 heterosexuais
11 homosexuais
6 pessoas seriam proprietárias de 59% das riquezas mundiais, e todas elas seriam dos EUA
80 não teriam uma habitação aceitável
70 seriam analfabetos
50 seriam subalimentados
1 morreria
2 nasceriam
1 ter ia um PC
1 teria uma formação académica
Se considerarmos o mundo nesta perspectiva, torna-se claro que a necessidade de fraternidade, ompreensão e saber é muito grande.
Se acordares hoje bem disposto e de saúde, tens mais sorte que 1 milhão de pessoas que não sobreviverá a próxima semana.
Se nunca passaste por uma guerra, isolamento numa cadeia, tortura e fome, então tens mais sorte do que 500 milhões de pessoas pelo mundo fora.
Se fores a uma igreja sem receio de ameaças, de prisão ou de vida, tens mais sorte que 3 mil milhões de pessoas.
Se tens comida no frigorífico, roupas no corpo, tecto sobre a cabeça e uma cama para dormir, és mais rico do que 75% da população mundial.
Se tens uma conta no banco e uns trocos na algibeira ou num mealheiro, pertences a um grupo de 8% da população mundial com uma situação económica confortável.
Se leres este email, a tua sorte é muito grande porque:
1. há uma pessoa que pensa em ti
2. tu não pertences a um grupo de 2 mil milhões de pessoas que não sabe ler e tens um PC!
Alguém disse um dia:
Trabalha como se não precisasses de dinheiro.
Ama como se jamais alguém te tenha ferido.
Dança como se ninguém estivesse a ver.
Canta como se ninguém estivesse a ouvir.
Vive como se o paraíso fosse aqui na Terra.
Inspirado pelo post de Francisco José Viegas, sob o título «O Medo do Brilho» onde, com um discernecimento escorreito, aborda a questão da contemporaneidade dos clássicos, do seu brilho intrínseco, a propósito da crítica de Eduardo Prado Coelho à nova encenação de Ricardo Pais de "Hamlet", cuja leitura íntegral recomendo, dei comigo a pensar sobre as "novas" tendências dos grupos de teatro em Portugal.
É cada vez mais raro encontrarmos nos palcos portugueses as obras da dramaturgia clássica, aquelas que fizeram o teatro ser teatro ou, quando se representam estão envoltas numa nublosa encenação que tenta, através de artifícios tecnológicos e/ou técnicas de encenação anacrónicas, introduzir (penso eu?) traços contemporâneos que, a meu ver, mais não fazem que descontextualizar o «brilho do texto» (nas palavras de FJV) sem nada acrescentar de substancial.
Parece existir e fazer escola que ser contemporâneo obriga a uma "criatividade" deslumbrada onde os artifícios do cenicamente inesperado e, por vezes chocante, são objecto em si mesmo e não instrumentos à disposição do encenador para realçar a(s) mensagem(s) no texto contida. Ou seja, parece-me que os profissionais do teatro têm sido mais influenciados pela estética cinematográfica de matiz hollyhoodesca, onde o sucesso é medido pela quantidade de efeitos especiais, concepções laboratoriais e computurizadas do tratamento da imagem e do som, relegando para o domínio do desprezível o argumento e a rte de representação. Não é por acaso que o filme que mais óscares recebeu, incluindo o de melhor filme do ano transacto, não tenha conseguido nenhumas estatueta no que concerne ao argumento, actores principais ou secundários! Julgo mesmo ter sido a primeira vez que tal ocorreu na história dos premiados de Hollyhood. Ou seja, a estética da produção, em vez de se confinar ao seu primo objecto, o de realçar e contextualizar o texto, passou ela própria a ser o espectáculo, dispensando o texto e consequentemente a necessidade da sua efectiva representação.
Este movimento colocado à ideia de desconstrução e à tendência de contra-cultura pós-modernista poderá conseguir, a espaços, momentos de criatividade brilhantes, mas parece incapaz, por medo ou opção, de nos revelar o esplendor do texto dramatúrgico, da palavra, do verbo, do enredo.
São como preferem hoje designar-se profissionais de artes performativas em vez de grupos de teatro, o que se explica pela paranóia da busca patológica de uma criatividade a todo o preço que a maior parte das vezes nos surge feita de colagens sem nexo, ou muito pobres de conteúdo quando comparadas com os clássicos, onde os efeitos da sonoplastia e do multimedia ocupam o lugar central, numa estética que se afirma pelas sensações visuais e sonoras imediatas e perenes, não procurando despertar no público o interesse de uma teia argumentativo/figurativa de um texto.
Este movimento, que ainda faz escola em Portugal e parece querer permanecer ainda por uns tempos, está para o teatro como o experimentalismo de Pierre Henry, a "música concreta", esteve para a música clássica - um período meramente experimental que nada acrescentou, datado e enterrado como uma breve experiência, exactamente, afinal, o que se tinha proposto e até como o "Frre" para o Jazz. Marcaram uma época, profundamente é certo, mas nada acrescentaram ao já realizado nem deixaram escola.
O rigor pelo texto regressou à música dita erudita, mesmo à contemporânea, onde os compositores são mais exigentes na escrita e na representação da sua criação e no Jazz já desde Parker que não conhecíamos um movimento tão profundo de regresso às raízes com o intuito de busca da inspiração prima para se refundar, recriar, e reconstruir como manifestação cultural afro-americana.
Excluindo casos pontuais como o da Cornucópia, onde sabemos que pelas maõs de Luís Miguel Cintra a vivência do texto permanece no cerne do desenvolvimento criativo, parece que a generalidade dos grupos optou por uma paranóia criativista purgada da substância que substancia o próprio teatro.
Mas, o experimentalismo como objecto, à semelhança do que aconteceu nas demais artes, será breve e datado, ficando para a história exactamente enquanto tal - um movimento experimental breve e não consequente.
Desde o primeiro governo da Aliança Democrática que somos governados pelo PSD e pelo PS, com breves alianças com o CDS/PP. Para o bem e para o mal estes dois partidos são os responsáveis pela situação actual do nosso país, pela condução dos nossos destinos há quase 25 anos.
À distância, o republicanismo e a ditadura, foram momentos de excepção no prosseguir de um "rotativismo" clientelar que já vinha de oitocentos e de uma alternância processual e não ideológica. Com efeito, após a Revolução Liberal de 1820 que derrubou o Antigo Regime e um breve período de consolidação do regime liberal (digamos, até 1836), que Portugal é governado por duas tendências mais processuais que ideológicas - as da contenção das despesas do Estado, com a poupança como objecto, e as de "modernização" das infra-estruturas de transporte e circulação. Curiosamente, apesar do cumprimento dos ideais liberais de separação dos poderes, nunca os portugueses ousaram retirar ao Estado o poder de único e credível motor do desenvolvimento económico. Navegámos sempre num misto de liberalismo institucional e um centralismo estatal económico e social. Ao olharmos para trás e pensarmos nos governantes que tivémos facilmente os enquadramos numa ou noutra tendência. Do poder interventivo do Estado é que ninguém ousou questionar.
Por sermos pequenos? Por nos afastarmos cada vez mais do explendor do Portugal de quinhentos? Não sei, é matéria para a história das mentalidades e para a sociologia.
Mas o acordo para a revisão constitucional de ontem é mais um passo neste sentido.
À parte as questiúnculas do Preâmbulo da Carta, o acordo de ontem revela, mais uma vez, que não há oposição à governação do país, que os dois partidos aceitam tàcitamente o rotativismo a que se acomodaram, estando sempre de acordo com as matérias de fundo, aqueles que poderiam realçar uma qualquer diferença ideológica identificante!
Não admira que, sem disso se aperceberem (ingenuidade?), acordam uma revisão constitucional a reboque de uma imposição das suas famílias europeias, retirando a Portugal, que representam, substancial parte da sua soberania (que nem sequer ainda se conhece até que ponto e em que medida), sem mandato efectivo nem consulta popular!
Ora, esta atitude é da maior arrogância anti-democrática e mesmo anti-liberal, i.e., os nossos representantes, ora no governo ora na oposição, partilham a opinião da superioridade do Estado face aos cidadãos sempre que pensem ou haja indícios que estes nunca plebiscitariam o que eles sem mandato específico a todos nos obrigaram. Esta é a cara mais visível do «Bloco Central», nas palavras de Francisco José Viegas, que nos cerca e aprisiona!
Será isto grave? Se calhar não é, é recorrente e os portugueses não têm manifestado, ao longo da sua história recente, grandes descontentamentos pela usurpação da sua representatividade. No entanto, sempre me restam duas interrogações:
1 - Onde estão todos esses arautos e acérrimos defensores do neo-liberalismo, da redução do Estado intervencionista?
2 - Onde estão todos esses social-democratas que enchem os pulmões para denunciar a ausência de mandatos (mesmo internacionais)?
O fundamento da Democracia é o plebiscito e a representatividade daí decorrente. Quando os partidos de poder subtraem ou usurpam aos cidadãos a sua representatividade não há espaço nem para a consubstanciação do liberalismo nem da democracia!
«As crises (...) educacionais e culturais fazem com que a cultura e a educação sejam cada vez mais ricas e plurais, que o «Bem» seja sempre uma constante busca que só parcialmente alcançamos, e uma vez alcançado nos deixe sempre insatisfeitos e, portanto, com a possibilidade de continuar procurando. «Malditas as educações que satisfazem». O satisfeito já não procura porque está saciado; quem já encontrou a verdade não necessita do diálogo, só pretende a imposição. «Pelo bem de todos» cometeram-se os mais terríveis crimes, ditaduras e dogmatismos ao longo da história. Somos firmes na procura de um permanente fazer-se. «Abre-se caminho, caminhando».
Enrique Gervilla em «Postmodernidad y Educación - valores y cultura de los jóvenes»
«(...) o que é próprio do saber não é ver nem demonstrar, mas interpretar» para «restituir a grande planície das palavras e das coisas, (...) falar de tudo, (...) fazer nascer, por sobre as marcas, o discurso ulterior do comentário».
Michel Foucault em "As Palavras e as Coisas"
Francisco José Viegas, na sua crónica semanal no JN (ver), a propósito do "Ensaio sobre a Lucidez" afirma a dado passo:
«A abstenção é uma arma mais poderosa, infinitamente mais poderosa, do que o "voto em branco": ela significa o desinteresse absoluto.»
ao que Vital Moreira responde, no Causa Nossa, extraindo o seguinte:
"Quem se abstém não vota, abdica de intervir, renuncia ao seu direito de voto, aliena-se dos mecanismos democráticos. Mas da abstenção não é possível retirar nenhum sentido geral nem unívoco, pois tanto pode significar uma absoluta rejeição dos mecanismos democráticos (um monárquico que se recusa a votar na eleição do presidente da República), como o simples desinteresse (“a minha politica é o trabalho”), como uma atitude de inutilidade (julgar antecipadamente decidido o resultado eleitoral), como o simples impedimento ocasional."
Pelo que disse aqui, aqui e aqui, é para mim claro que a abstenção significa o desinteresse, sim, mas particularmente a incapacidade das candidaturas em captar o desejo de voto.
É verdade que esse desinteresse «não tem um sentido geral nem unívoco», como aponta Vital Moreira, mas tem uma causa única - a incapacidade de mobilização das candidaturas, seja pelo seu conteúdo programático, por rejeição dos mecanismos democráticos, seja por alheamento ou comodismo de uma grande parte do colégio eleitoral.
Assim sendo, permanecem sem resposta três questões, a meu ver, importantes para a construção da democracia:
1 - Porque insistem os partidos políticos no monopólio do processo de candidatura em eleições legislativas?
2 - Porque é que os partidos políticos insistem na não obrigatoriedade dos seus candidatos serem residentes (residência fixa, real e comprovável) nos círculos a que se propõem?
3 - Porque é que os candidatos não eleitos pelos partidos ocupam os lugares para os quais ninguém elegeu ninguém, premiando-se, desta forma, os que não foram capazes de mobilizar os eleitores?
A manter-se este processo de representatividade, escamuteando a percentagem da abstenção, nunca os instalados, no caso os partidos políticos e sua clientela, sentirão necessidade de se reverem a si próprios no sentido de procurarem caminhos mais directos, mais eficazes e mais participativos do exercício da cidadania e da sua real e verdadeira representatividade.
Mesmo regressando ao "Ensaio sobre a Lucidez", apesar de estar de acordo com a visão pessimista e anacrónica da reacção ao voto em branco de que fala Francisco José Viegas, sou sensível ao que o Paulo Gorjão quando, aqui, afirma, realçando que o que ressalta, mais que o voto em branco e a ficcionada reacção, é um justo apelo a reflectirmos sobre a democratização dos "mecanismos democráticos" de modo a que a democracia não seja uma inevitabilidade do mal menor, mas sim um processo de manifestação de cidadania o mais abrangente e participada possível.
Francisco José Viegas, na sua crónica semanal no JN (ver), a propósito do "Ensaio sobre a Lucidez" afirma a dado passo:
«A abstenção é uma arma mais poderosa, infinitamente mais poderosa, do que o "voto em branco": ela significa o desinteresse absoluto.»
ao que Vital Moreira responde, no Causa Nossa, extraindo o seguinte:
"Quem se abstém não vota, abdica de intervir, renuncia ao seu direito de voto, aliena-se dos mecanismos democráticos. Mas da abstenção não é possível retirar nenhum sentido geral nem unívoco, pois tanto pode significar uma absoluta rejeição dos mecanismos democráticos (um monárquico que se recusa a votar na eleição do presidente da República), como o simples desinteresse (“a minha politica é o trabalho”), como uma atitude de inutilidade (julgar antecipadamente decidido o resultado eleitoral), como o simples impedimento ocasional."
Pelo que disse aqui, aqui e aqui, é para mim claro que a abstenção significa o desinteresse, sim, mas particularmente a incapacidade das candidaturas em captar o desejo de voto.
É verdade que esse desinteresse «não tem um sentido geral nem unívoco», como aponta Vital Moreira, mas tem uma causa única - a incapacidade de mobilização das candidaturas, seja pelo seu conteúdo programático, por rejeição dos mecanismos democráticos, seja por alheamento ou comodismo de uma grande parte do colégio eleitoral.
Assim sendo, permanecem sem resposta três questões, a meu ver, importantes para a construção da democracia:
1 - Porque insistem os partidos políticos no monopólio do processo de candidatura em eleições legislativas?
2 - Porque é que os partidos políticos insistem na não obrigatoriedade dos seus candidatos serem residentes (residência fixa, real e comprovável) nos círculos a que se propõem?
3 - Porque é que os candidatos não eleitos pelos partidos ocupam os lugares para os quais ninguém elegeu ninguém, premiando-se, desta forma, os que não foram capazes de mobilizar os eleitores?
A manter-se este processo de representatividade, escamuteando a percentagem da abstenção, nunca os instalados, no caso os partidos políticos e sua clientela, sentirão necessidade de se reverem a si próprios no sentido de procurarem caminhos mais directos, mais eficazes e mais participativos do exercício da cidadania e da sua real e verdadeira representatividade.
Mesmo regressando ao "Ensaio sobre a Lucidez", apesar de estar de acordo com a visão pessimista e anacrónica da reacção ao voto em branco de que fala Francisco José Viegas, sou sensível ao que o Paulo Gorjão quando, aqui, afirma, realçando que o que ressalta, mais que o voto em branco e a ficcionada reacção, é um justo apelo a reflectirmos sobre a democratização dos "mecanismos democráticos" de modo a que a democracia não seja uma inevitabilidade do mal menor, mas sim um processo de manifestação de cidadania o mais abrangente e participada possível.
No passado fim-de-semana Peter Roebke esteve em Lisboa a convite da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) para oriemtar um seminário sobre "Didáctica dos Instrumentos" a professores das nossas escolas de ensino vocacional, vulgo Conservatórios.
De parabéns está a ESML por convidar um dos mais conceituados personagens mundiais nesta matéria, professor catedrático na "Universität für Musik und darstellende Kunst Wien", isto é, tentando traduzir, Universidade de Música e Artes Performativas de Viena. Estes seminários em anos anteriores vinham sendo levados a cabo por António Mário Meneres Barbosa e esta alteração não é passível de ser comparada. Este género de convites trazem sempre valor acrescentado ao nosso país e, se for necessário recorrer a estrangeiros, venham eles, para colmatar faltas de competência em sectores particulares, como é o caso.
Dos participantes que contactei não encontrei nenhum que não desse por muito bem empregue o tempo ganho neste seminário de 16 horas em dois dias. Concentrado, mas muito proveitoso. Não é por acaso que Peter Roebke é um dos mais requisitados pedadgogos pelos cursos superiores de música das Universidades europeias e norte-americanas.
Vem esta apresentação a propósito da oportunidade que ocasionalmente tive de conviver breves horas com tão despretensioso mestre e constatar, sem ele se aperceber, do desiderato educacional que nos separa e afasta ainda desta nossa Europa!
Com efeito, abordando a realidade do ensino da música e das artes performativas, em geral, na Austria, Peter Roebke disse que há 220.000 alunos naquele país de cerca de 8 milhões de habitantes, sendo que apenas (nas suas palavras) 1% chega a profissional. Ora, em Portugal temos cerca de 15.000 alunos e menos de metade de 1% chega a profissional, em mais de 10.000.000 habitantes!
Há muitas deduções a fazer em torno destes dados meramente estatísticos, desde logo as condições (lá vêm elas) sóciais, económicas dos respectivos países e as financeiras das famílias. No entanto, ouso algumas reflexões:
1 - Um dos erros do nosso sistema de ensino das artes performativas (música, dança, teatro, por exemplo) é que as nossas escolas vocacionais, por influência das determinações do Ministério da Educação, têm uma missão desadequada ao contexto em que se inserem. Com efeito, estas escolas orientam-se, única e exclusivamente, pela superior missão de querer preparar profissionais desde a mais tenra idade (lembramos que há instituições que recebem, e bem, alunos a partir dos 3 anos). Ora esta postura pedagógica inviabiliza à partida que um qualquer jovem que não queira ser um profissional possa fruir de conhecimentos e sensibilização adequadas para poder ser um futuro cliente desses espectáculos, sentindo-se, na maior parte das vezes, marginalizado por não obter resultados equivalentes à "imensa" minoria que por vocação seguirão a via profissionalizante.
2 - Por outro lado, o sistema que se iniciou este ano lectivo (de forma gratuita) chamado de ensino articulado, entre as escolas básicas regulares e as vocacionais de artes, que sofre ainda de fortes resistências e boicotes à sua prossecução, tem mais de 20 anos de sucesso na Áustria e em grande parte dos países da Europa, por exemplo, Alemanha, Hungria, Reública Checa, Polónia, Eslovénia, Suíça, França...
3 - A inexistência de escolas verdadeiramente profissionalizantes às quais apenas acedam os alunos do ensino obrigatório que demonstram aptidão e interesse inequívoco para a profissionalização, obrigam a que a missão das actuais escolas vocacionais seja demasiadamente elástic, com o inconciliável objectivo de, por um lado, conseguir não desmotivar os poucos ousam não desistir após o 6/7º ano e incentivar as exigências necessárias aos que podem ir mais além.
Sem me deter em mais pontos posíveis de contacto entre a nossa realidade do ensino de música e artes performativas e o austríaco, sempre retorno à minha ideia de que temos perdido muito tempo (a mudança entre os antigos Conservatórios e as Escolas Superiores ainda nem sequer produziu frutos notórios e seguros) e a de que muito há a fazer no domínio dos desenvolvimentos curriculares do "trivium" e do "quadrivium".
E, por favor, senhores mandantes, à falta de um modelo educativo consensual, por favor, cuide-se mas é de ensinar, de educar, como sempre se fez, mesmo sem o modelo "óptimo"!
Respondendo ao que aqui disse sobre a desclassificação da abstenção, Vital Morerira, no Causa Nossa, rebate ponto aponto o que afirmei, nomeadamente, quando referi que neste seu texto se notava a tendência de considerar irrelevante a abstenção na constituição da representação democrática.
O Professor considera infundada a minha crítica pois tem escrito muito sobre o assunto (o que é verdade), mas não deixa de preferir dar mais ênfase aos efeitos hipotéticos do voto em branco, ao manter que a abstençaõ é um acto de " (...) hostilidade de menor intensidade e de menor impacto".
Ora, é precisamente na valorização de "menor impacto" que mantenho a minha discordância. É que o voto em branco, em última análise, revela que se está de acordo com o sistema em vigor, mas não se identifica com nenhum dos candidatos, enquanto que a abstenção releva uma de duas posições - ou desinteresse no cumprimento de um dever de cidadania ou, para além de nenhum dos candidatos seduzir, não se revê neste sistema representativo!
É esta segunda hipótese que a nossa democracia tem de equacionar e resolver! É que 30% de abstencionistas não se podem, sumariamente, qualificar de irresponsáveis. Defendi que a melhor forma de combater esse manifesto (que não voto) é abrir mais espaço de paticipação aos cidadãos e, por outro lado, responsabilizar os partidos candidatos de duas formas: permitir candidaturas extra-partidárias e que a abstenção premeie candidatos, impedindo-os de ocupar assentos que, por via da abstenção, não lhes foram plebiscitados nem conferidos, deixando-os vagos tal qual o resultado do processo eleitoral.
Vital Moreira contrapõe que já existe a possibilidade de candidaturas extra-partidárias e que por esse facto a abstenção não é menor (o que não confirmo, em geral as eleições autárquicas são mais participadas que as legislativas e, sem margem para dúvida, que as europeias) e que, passo a citar, " a diminuição da dimensão das assembleias proporcionalmente à abstenção representaria uma espécie de punição das instituições representativas, em prejuízo dos eleitores que não se abstiveram e que não têm culpa da abstenção dos outros. A abstenção não deve ser premiada, muito menos com a diminuição da qualidade da democracia representativa."
Aqui está mais uma declaração de menoridade dos abstencionistas, colocando-os à margem do processo representativo, cujo não voto premeia, exactamente, aqueles que a abstenção nunca quis premiar. Pelo facto de reduzir a quantidade de representantes não é linear que se reduza a qualidade da democracia representativa! Bem pelo contrário, a representação deve impor a verdade da representatividade plebiscitada, responsabilizando aqueles que não conseguiram (nem pretendem conseguir, na minha opinião) justificar a adesão dos abstencionistas!
A punição de que Vital Moreira fala, a das instituições representativas, não é verificável. A punição que advogo é a dos candidatos e candidaturas que nada disseram aos eleitores e que, ocupando os lugares para os quais ninguém foi eleito, continuarão sem nada fazer para os inserir no processo democrático representativo.
Não é a abstenção que deve ser premiada, Sr. Professor, nisso estou de acordo, são os candidatos que ninguém plebiscitou que não devem, como têm sido, premiados com assentos para os quais não foram investidos de soberania pelo colégio eleitoral. É uma questão de verdade representaiva, para mim, um passo em frente no desenvolvimento das possibilidades de participação de cidadania com correspodente aperfeiçoamento da democracia.
Diz no Causa Nossa que:
"Ao contrário da abstenção, que é geralmente produto de uma atitude de desinteresse ou falta de informação, ou de hostilidade de baixa intensidade, o voto branco supõe uma atitude deliberada e uma rejeição de mais forte intensidade(...)"
Ora aqui está mais uma visão que revisita a tentação de considerar irrelevante a abstenção, isto é, não querer atribuir-lhe qualquer outra intenção que não seja a de desinteresse (conotando, subliminarmente como uma atitude socialmente reprovável) ou de falta de informação, como se não não vivêssemos em plena "overdose" de informação.
É que contrariamente ao voto em branco ficcionado por Saramago, entendido como um voto "esclarecido" de não alinhamento num qualquer programa partidário, a abstenção representa sempre uma recusa de participação no acto eleitoral que, apesar de ser passível de diversas leituras, uma há que é irrefutável - os abstencionistas recusam-se a alienar a sua paticipação cívica na construção da democracia no estreito caminho partidário.
Este é um problema bem mais grave e lactente nas nossas democracias que o apelo ao voto em branco já que, antes de mais, coloca ao regime uma tarefa de revisão dos meios de participação cívica fora do âmbito partidário.
Ora, é esta liberdade de intervenção cívica, paradigma de uma cidadania consciente e esclarecida que todos os partidos se têm recusado a equacionar para além da inclusão do "independente" numa lista partidária.
É verdade que nãoé linear que uma revisão constitucional e da lei eleitoral que comtemplasse o acesso de candidaturas de simples cidadãos aos escrutínios legislativos, nacionais e europeus, provocasse uma imediata redução das parcentagens da abstenção, mas seria um passo fundamental que a abstenção fosse substanciada com a sua significância, ou seja, que a percentagem por ela alcançada em todos os processos eleitorais tivesse correspondência em assentos vagos nos orgãos representativos de soberania, em prejuízo proporcional dos candidatos partidários.
Estou persuadido que esta medida obrigaria as Assembleias Representativas a repensar o modo que envolver os cidadãos no seu dever de cidadania. Mas no entretanto, enquanto os partidos retirarem à abstenção a sua substância, negando e escamoteando o seu real espaço, ocupando os seus representantes assentos para os quais não foram plebiscitados, os partidos nada farão pois continuam a ocupar os lugares deixados vagos pelos codadãos abstencionistas.
Mais grave que a abstenção é a negação da sua evidência e, este sim, poderá, aprazo, colocar sérios problemas de representatividade às sociedades ocidentais.
Porque é que a ideia do voto branco do Saramago incomoda tanta gente, da direita à esquerda?
Ciente da crescente abstenção, provocada pela incapacidade deste sistema representativo que atribui aos partidos, em regime de exclusividade, a responsabilidade de mobilizar os cidadãos e que por tal o ónus dessa abstenção sobre eles recai, não encontrei resposta que não fosse o medo. O medo de para si próprios assumirem que o "seu reino" vai nu!