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junho 14, 2006
Enriquecimento curricular e urticária aguda
Há palavras e expressões que, quando aplicadas ao ensino, provocam-me mesmo urticária aguda!
Ele é oficinas, ele é atelieres, ele é workshops, ele é despertar, ele é currículos alternativos, ele é enriquecimento curricular...
«No próximo ano lectivo todas as escolas do 1.º ciclo do ensino básico terão de disponibilizar aos seus alunos pelo menos duas horas diárias (dez semanais) de actividades de enriquecimento curricular.»
«O enriquecimento curricular (que a escola tem de oferecer, mas de que as famílias podem não querer usufruir, uma vez que a inscrição dos alunos nestas actividades não é obrigatória) pode acontecer no espaço da escola, em salas de aulas, centros de recursos, bibliotecas, por exemplo. Mas também podem ser utilizados espaços não escolares - por exemplo, se a escola tiver uma parceria com um estabelecimento de ensino profissional de música local, os meninos podem ser deslocados para as instalações deste último, para ter aulas de música.» (palavras do Primeiro Ministro e da Ministra da Educação, via Público)
Havendo um projecto curricular aprovado e em vigor (no âmbito do ensino da música, da dança, do teatro) que sentido faz esta de coisa de enriquecimento, como opção e extra-curricular?
Se algum vislumbro, Sra. Ministra, será o de uma assumida regressão no que concerne ao almejado projecto de integração do ensino artístico no ensino regular.
E quem irá dar este tal de enriquecimento? Professores que concorreram segundo critérios universais ou serão nomeados, quiçá, também ao abrigo do enriquecimento... dos amigos?
Começa a ser muito erro - a manta começa a ficar muito curta! Começa a ver-se que, se calhar, não existe mesmo intenção de melhorar o ensino, apenas cegos cortes orçamentais e passar os meninos a torto e a direito.
Mas se é esse o objectivo, para quê tanto estudo, tanta comissão, tantas questiúnculas de natureza educativa?
Publicado por Carlos Araújo Alves em junho 14, 2006 10:48 AM
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Recebido em junho 15, 2006 01:10 PM
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Recebido em junho 16, 2006 12:36 PM
Comentários
Há que dar empregos, caro amigo; é essa a razão das comissões.
Muitos erros, manta curta, peneiras a tapar um sol faccioso... estamos a ficar muito fartos e, o que é pior, muito deprimidos, depois de nos sentirmos completamente frustrados. Posso dizer que a minha vida de professora (já há 24 anos) teve momentos belos e únicos, por ser de verdadeira vocação; e que neste momento queria mudar. Nos últimos 4 ou 5 anos as coisas têm piorado tanto, tanto... que este ano foi, sem sombra de dúvida, o pior da minha vida profissional.
E agora?
Publicado por: Elipse às junho 14, 2006 11:31 AM
Na escola de um dos meus filhos já existem muitas actividades "extra", de lazer ou de enriquecimento (como lhe queiram chamar) pela mão(ou carolice) de alguns professores e penso que não vem mal nenhum ao mundo por isso. Há um clube do património (da responsabilidade de uma professora de História) com passeios ao fim-de-semana e visitas a locais históricos da região, em que os pais também podem participar; um clube aventura (com passeios de bicicleta pela serra, canoagem e acampamentos); um grupo de teatro, um jornal feito pelos professores, alunos e pais; um grupo de jogos tradicionais...
Estas actividades existem porque a escola tem muitos professores efectivos que moram por aqui e desenvolvem estas actividades por carolice e também porque há condições na região para o fazer, nomeadamente apoio da junta de freguesia. Mas pode a sra. ministra obrigar todos os professores a fazer isto sem o mínimo de condições? Assim à toa? Vamos lá "cultivar" os meninos... Posso obrigar uma professora (de outro filho meu) que dá aulas a 300 quilómetros de casa a andar a passear com os meninos pelos museus ao fim-de-semana? Eu até percebo quando ela faz "pontes" e vai a casa ver a família. Deixa as crianças com trabalho organizado e bem entregues a outra colega dela nos dias em que falta à sexta-feira.É claro que ficaria muito danada se ela pura e simplesmente se baldásse e deixasse os miúdos ao deus dará, mas como ela é uma professora competente, organizada e dedicada a minha "avaliação" não pode passar para a esfera da vida privada dela. Também gostava muito que ela acompanhásse o meu filho até à quarta classe, mas ela provavelmente desejará dar aula mais próximo de casa.É humano, não... Penso que a senhora ministra está a entrar num campo muito delicado: a relação entre pais e professores. Está a quebrar o elo de confiança que se estabelece ao longo do ano lectivo. Eu quando tenho alguma coisa a dizer sobre os professores dos meus filhos digo-lhes a eles, não faço queixinhas ao ministério. Posso avaliá-los e eles podem avaliar-me a mim, podemos estar em desacordo, mas caramba, não somos "polícias" uns dos outros.
Publicado por: marina às junho 14, 2006 12:59 PM
A afirmação e defesa dos nossos princípios, Elipse, é mais importante que a própria liberdade de expressão. Ou seja a liberdade de expressão só faz sentido enquanto meio ideal para uma cidadania activa.
Pois, Marina, parece que por vezes a nossa comunicação falha. Pela minha parte vou tentar ser mais preciso:
Nada tenho contra, bem pelo contrário, as actividades extra que a escola possa proporcionar. Estou é em absoluto desacordo que o ensino das artes seja um extra.
Viremos o assunto de "pernas para o ar": faria sentido que o ensino regular só versasse sobre artes, passando as restantes áreas de conhecimento para extras?
Publicado por: Carlos a.a. às junho 14, 2006 04:24 PM
Tem razão. De facto essa ideia do "extra" para as artes é muito infeliz, ainda por cima vinda de quem vem. E assim se lança mais uma "ideia extraterrestre" para carregar as costas dos professores. Confesso-lhe que há uns meses tinha alguma empatia com a sra. ministra, porque gostei do refrão da cantiga "vamos mudar a escola", um tema fácil de trautear que toca o coração de qualquer mãe, mas ultimamente, é "cada tiro, cada melro".
Publicado por: marina às junho 14, 2006 05:36 PM
Durante onze anos estive ligado a um projecto na área da expressão/educação/oquequiserem musical que obedecia a dois princípios: ser integrado no horário lectivo das escolas do 1º Ciclo e ser inteiramente gratuito para as famílias. Começou com cerca de 500 alunos e, no 11º ano de funcionamento, abrangia 2100 crianças; os professores eram recrutados pelo Conservatório Regional local e pagos segundo os bons preceitos: nada de recibos verdes ou 10 meses de salário, mas sim de acordo com o Contrato Colectivo de Trabalho, 14 meses, descontos todos feitos e, até um momento, com contagem de tempo de serviço.
Foi pago, sem falhas, pela Câmara Municipal local e, de uma forma sempre arrancada a ferros, pelo ME. Houve, por vezes, necessidade de recorrer à angariação de patrocínios para cobrir a diferença que o próprio Ministério não assegurava na totalidade.
Soube, hoje, que o projecto enquanto tal vai acabar, por causa destes delírios pós-lectivos/extra-curriculares/enriquecedores. Vai passar a ser uma coisa difusa, diluída nos diversos agrupamentos.
Curioso é o facto de, pelo menos até há dois anos atrás o custo aluno ser cerca de 55 euros/ano e, pelo que leio na comunicação social, o pessoal anda muito contente pelo custo ano/aluno das aulas de inglês que durante o ano lectivo corrente abrangeram o 3º e 4º anos. Sabem qual foi? 100 euros.
Não há aqui qualquer coisa que não bate certo?
Publicado por: Carlos Semedo às junho 15, 2006 07:22 PM
Estimada Marina
Sou um "romântico" por natureza - continuo, lá no fundo, a considerar a Sra. Ministra bem intencionada, mas no mínimo, muito, mas muito mal aconselhada!
Estimado Carlos Semedo
Subscrevo, sem hesitação, tudo o que escreveu e considerei de tal forma pertinente que tomei a liberdade de transcrever este seu comentário para "post".
Muito obrigado a todos.
Publicado por: Carlos a.a. às junho 16, 2006 12:45 PM