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julho 15, 2005
Ballet Gulbenkian - reflexões
Não tenho dúvida de que a extinção do "Ballet Gulbenkian" é uma perda sem retorno para a dança e a cultura portuguesa.
Como disse o Henrique Silveira, O "Ballet Gulbenkian" já não era da Fundação nem sequer português - era património mundial e um orgulho nacional.
Permito-me, contudo, reflectir um pouco sobre modelos de gestão culturais e de gestão de dinheiros públicos no que à cultura diz respeito.
Será, no entanto, que a Fundação poderá abster-se de se regular pelas tendências de gestão cultural hoje em voga, muito mais rentáveis e, em muitos casos, não menos eficazes?
Estou de acordo quando o Henrique afirma «Longe estão os dias de Azeredo Perdigão, longe está a elegância e a qualidade do homem que fez da instituição o verdadeiro ministério da cultura de Portugal» mas, apesar da excelência da referida Companhia e do facto de ser, em boa verdade, a única escola de ballet em Portugal, o que a Fundação gasta com a sua manutenção é muito menos rentável do que apoiar diversos projectos na área, dentro e fora de portas, ou organizar espectáculos - o seu nome e imagem obtêm uma implantação exponencial face à aposta numa companhia residente.
É que longe vão os dias de Azeredo Perdição, os dias e os tempos, havendo que modernizar a gestão da Fundação para que daqui por uns anos possamos ainda contar com ela para apoiar a cultura portuguesa.
Note-se que digo isto com mágoa, entenda-se, mas trata-se de uma empresa privada, no caso com a figura jurídica de fundação, não lhe cabendo o papel que desempenhou, é certo, de ministério da cultura, mas sim de apoio aos projectos que considerará mais interessantes para o desenvolvimento da sua missão.
«Este país tem uma ministra da cultura que não comenta nem dá a sua opinião sobre a extinção do Ballet Gulbenkian», diz o Henrique. Pois não, não comenta nem deve interferir na esfera do privado, podendo, apenas, lamentar a perda.
O que eu questiono é por que razão o Estado nunca apoiou a Fundação Gulbenkian, nomeadamente, a sua Orquestra e o seu Ballet?
De facto, o que agora aconteceu ao Ballet poderá rapidamente acontecer à Orquestra, uma vez que não se justifica que o Estado continue sem privilegiar a Gulbenkian como parceira preferencial nos domínios da Cultura e da Ciência, em vez de andar a esbanjar, só em Lisboa, dinheiros públicos com uma Companhia de Ópera, residentemente fixa e fixada, uma Sinfónica agregada à Ópera que pouco toca e não se desloca e uma Orquestra Metropolitana de que ninguém compreende a sua razão de existir, pulverizada que está de estrangeiros, negando a sua missão prima de ser uma via de profissionalização para os alunos da Escola Superior de Música que está na base do projecto AMEC!
Algo me diz que, não havendo dinheiro para isto tudo, o Estado deveria, há muito tempo, aliar-se a quem sabe fazer, a Gulbenkian, e abster-se de manter projectos que revelam indícios muito duvidosos na divulgação da música, do ballet e da ópera.
É tempo de poupar onde está muito mal gasto e aplicar os parcos recursos em quem tem provas dadas de que sabe fazer.
Quem sabe se, deste nodo, não seria possível Portugal manter a Companhia de Bailado e a Orquestra, apoiadas pelo Estado e pela Gulbenkian e outros privados, não deixando o ónus da manutenção, exclusivamente, para a Fundação?
ps: os bailarinos do Ballet Gulbenkian abriram um blogue (clique)
Publicado por Carlos Araújo Alves em julho 15, 2005 04:39 PM
Comentários
Já lá fui apresentar a minha modesta solidariedade.
Foi uma decisão criticável a todos os títulos mas
achei muito interessante a abordagem feita pelo nosso colega Hammer sobre esta questão. Achas mesmo que a Fundação Gulbenkian tem alguma necessidade de reduzir despesas numa altura em que o barril do petróleo está a um preço quase proibitivo. Não creio que seja essa a razão. Provávelmente Rui Vilar está a pretender seguir o programa economicista que o governo nos quer impôr acabando com uma actividade cultural de relevo. Que tenhas um excelente fds. Com um abraço do Raul
Publicado por: congeminações às julho 15, 2005 08:20 PM
Não acredito suficientemente na bondade dos creitérios deste tipo de gente para concordar. Não creio que os critérios economicistas, de marketing, de mercado, devam ser aplicados, assim, nestas questões da cultura. Além disso, a adopção desses critérios é contrária aos "Fins" duma Fundação como a GulbenKian. Claro que eu acho que deve existir gestão e rigor (e rentabilidade, quanto mais não seja reprodutiva), em todo o lado... mas daí a adoptar estes critérios numa situação destas...
Há um conjunto de factos que desaconselham, e todos eles entroncam numa mesma questão, que uma fundação desta natureza devia colocar acima de tudo. Vão desde a situação do País, à gestão das, legítimas, espectativas (que não devem ser abaladas a agravar a situação do País), ao prestígio (e idoneidade) da própria Fundação, etc. etc. etc.
Se existem outras formas, mais rentáveis e socialmente equivalentes, de manter a actividade (e a colocação das pessoas) porque é que a Fundação não avançou para a ciração dessas "formas", colocando deslocando as pessoas?
O que eu qcho, francamente, é que a Fundação está a tentar fazer com que os bailarinos passem a ser "tarefeiros", "eventuais", tentando "poupar dinheiro" por essa via, como acontece (com consequências desastrosas) em muitos outros sectores de actividade, incluindo o jornalismo...
Esta gente devia começar a perceber que, independentemente das necessidades de mudar, primeiro implementam-se as mudanças, trata-se das pessoas e só depois se efectivam as alterações. É tudo uma questão de "honorabilidade", de pudor, de dignidade...
Publicado por: Biranta às julho 18, 2005 12:24 PM
Confesso que fiquei apreensivo com o anúncio da extinção do Ballet Gulbenkian e as inevitáveis consequências para a cultura em Portugal. Achei a sua reflexão muitíssimo interessante, fez-me repensar o assunto e de facto concordo com o princípio do apoio de projectos, uma vez que à Fundação Gulbenkian não cabe o papel de se fazer substituir ao Ministério da Cultura. Seria muito interessante que a Sra. Ministra da cultura pudesse ler a sua reflexão sobre o assunto e dele retirasse ilações.
Para terminar não posso deixar de concordar também com o comentário do Biranta quando diz que "primeiro implementam-se as mudanças, trata-se das pessoas e só depois se efectivam as alterações".
Já conhecia o artigo «A esquerda pasmada e a República nua» de Maria Alzira Lemos mas gostei de o reler e comentar... Voltarei mais vezes, o seu blog já está na minha lista de favoritos!
Um abraço
Publicado por: Valentino às julho 18, 2005 06:13 PM
Nem de propósito, no dia seguinte a escrever este texto, aparece Santana Lopes quase a dizer que tomaria conta o Ballet Gulbenkian!
Um gajo até fica sem pinga de sangue!
Vamos por partes:
1 - a resolução da Fundação não vai contra os princípios deixados por Calouste Gulbenkian - nada , no seu legado, obriga à constituição ou manutenção de artistas ou companhias residentes. Bem pelo contrário, o seu legado, insiste no apoio a diversos artistas no sentido de fomentar a sua aprendisagem no estrangeiro e a organização de eventos que propiciem a educação artística, dos jovens e do público, em geral;
2 - a Cultura, como em qualquer outra área, deve reger-se por rigorosas técnicas de gestão que aasegurem a proficuidade dos apoios em retorno de melhor cultura e acesso à mesma, bem como, de certo modo, desabituar o público de que a cultura é um bem precioso, pelo que não pode ser gratuitamente banalizado;
3 - a tendência para a pulverização de subsídios e patrocínios por entidades privadas parece ter vindo para ficar. Compete aos subsidiados e ao Estado adapatarem-se e gerirem de outra forma os seus recursos.
Muito obrigado pelos comentários.
Publicado por: carlos a.a. às julho 20, 2005 12:31 PM
A Fundação qualquer dia é só o petróleo! Será quequerem também acabar com o museu?
Publicado por: definitivoekentuky às julho 23, 2005 03:05 PM
Somos um País que se não compreende. Até o pouco de bom que temos se lança fora.
Mudei de endereço. Aguardo uma visita quando puder ser.
Publicado por: lumife às julho 28, 2005 11:59 PM
acabou-se a dança e um pedaço de cultura “ estoirou” em favor da redução de custos, como se de uma mera fabriqueta se tratasse... o mal dos mercados...e o mal da cultura dos incultos...
Publicado por: hammer às agosto 2, 2005 11:01 AM