abril 28, 2004

Semana Internacional da Amizade - perspectiva

Se reduzíssemos a população mundial à escala de 100 habitantes numa pequena localidade, distribuídas proporcionalmente ao panorama mundial, essa localidade seria mais ou menos assim:

57 asiáticos
21 europeus
14 americanos (norte e sul)
8 africanos

52 mulheres
48 homens

70 não brancos
30 brancos

70 não cristãos
30 cristãos

89 heterosexuais
11 homosexuais

6 pessoas seriam proprietárias de 59% das riquezas mundiais, e todas elas seriam dos EUA

80 não teriam uma habitação aceitável

70 seriam analfabetos

50 seriam subalimentados

1 morreria
2 nasceriam

1 ter ia um PC

1 teria uma formação académica

Se considerarmos o mundo nesta perspectiva, torna-se claro que a necessidade de fraternidade, ompreensão e saber é muito grande.

Se acordares hoje bem disposto e de saúde, tens mais sorte que 1 milhão de pessoas que não sobreviverá a próxima semana.

Se nunca passaste por uma guerra, isolamento numa cadeia, tortura e fome, então tens mais sorte do que 500 milhões de pessoas pelo mundo fora.

Se fores a uma igreja sem receio de ameaças, de prisão ou de vida, tens mais sorte que 3 mil milhões de pessoas.

Se tens comida no frigorífico, roupas no corpo, tecto sobre a cabeça e uma cama para dormir, és mais rico do que 75% da população mundial.

Se tens uma conta no banco e uns trocos na algibeira ou num mealheiro, pertences a um grupo de 8% da população mundial com uma situação económica confortável.

Se leres este email, a tua sorte é muito grande porque:

1. há uma pessoa que pensa em ti

2. tu não pertences a um grupo de 2 mil milhões de pessoas que não sabe ler e tens um PC!

Alguém disse um dia:

Trabalha como se não precisasses de dinheiro.
Ama como se jamais alguém te tenha ferido.
Dança como se ninguém estivesse a ver.
Canta como se ninguém estivesse a ouvir.
Vive como se o paraíso fosse aqui na Terra.

Anti-promiscuidade = Promiscuidade?

A propósito deste post do Francisco, lembrei-me da última campanha eleitoral para a as autárquicas no Porto!
Rui Rio e Pacheco Pereira desdobraram-se em denúncias contra a "promiscuidade entre a política e o futebol", atrirando-se contra o F.C. do Porto, através de Pinto da Costa, às cavalitas e com o beneplácito do Boavista e do silêncio do Sr. Major que, com a vitória de Rui Rio, passou a dominar a distrital do PSD, nomeando um dos seus cromos para substituir Luís Filipe Meneses.
É muito estranho que agora ninguém os ouça sobre o caso real do Sr. Major e mais estranho será se Rui Rio aparecer como o seu substituto, ou homem de mão, na Presidência do Metro do Porto.

A Força da Democracia no Iraque

Eh pá, ontem é que se viu a força da democracia....., à razão de 10 bombas por minuto, sobre uma cidade com 300.000 habitantes!

abril 27, 2004

A Saúde das Listas de Espera

É, no mínimo estranho, que o Ministro da Saúde tenha anunciado a libertação de uma verba considerável para que o utente em lista de espera possa recorrer a qualquer hospital público ou privado para se tratar, sem antes pagar aos médicos que se esforçaram a recuperar essas mesmas listas, permanecendo em greve, no Sto. António , por exemplo, há mais de 3 meses!
Não me orienta nenhuma obessão pelo público ou pelo privado, pugno apenas para que os utentes sejam atentidos bem e a tempo e horas, mas é estranho o deixar prolongar esta greve do Sto. António pois é o hospital português que mais transplantes hepáticos realiza.
Há dias foi publicitado com pompa e circunstância o novo bloco operatório e as condições especiais para a realização de transplantes hepáticos do Curry Cabral. E muito bem. No entretanto, por birra, permite-se que o Sto. António continue sem os realizar, talvez conseguindo desta forma um superior desempenho financeiro! A administração deve estar feliz que isto de transplantes e respectivo acompanhamento dos transplantados dá um prejuízo do caraças, quantos menos se fizeram mais o hospital poupa e lá sobe no "ranking" do Ministério!
É que entre os melhores hospitais S.A. não se encontra nenhum que faça transplantes nem assista os doentes crónicos. É ridúcula a conclusão de que o Hospital de Barcelos seja o melhor hospital do país, exactamente aquele que mais se assemelha a um mero Centro de Saúde. Mas que lá figura ele em primeiro lugar, isso figura!
Eu gosto de confiar, mas confesso que às vezes me colocam muitos entraves...

CAA, no Blasfémias, desagrada-se com os empresários!

CAA, no Blasfémias, mostra-se agastado com as propostas dos empresários da AEP, dizendo:

"Desbocam-se em discursos titubeantes, são autênticos neosocialistas travestidos de yoopies, repristinando teorias que já eram velhas há 40 anos atrás."

Ora, sobre isto sem sequer saber de todas as medidas que o projecto propõe, parece certo que, acercando-se de recentes pensadores económicos, os empresários parecem querer devolver ao Estado um papel determinante no desenvolvimento económico, não interventor, mas regulador e propiciador de bases catalisadoras da iniciativa empresarial privada, defendendo, afinal, o que os EEUU vêem fazendo ao longo dos tempos, reservando a doutrina liberal e neo-liberal para assuntos do foro dos negócios estrangeiros, como discurso estratégico mais eficaz de sempre.
Sobre este assunto já aqui tinha escrito.

O problema de Portugal.....................................

Ontem, ao passar pelo televisor, sintonizado nos "Prós e Contras", ouvi um senhor, Black de seu nome, pareceu-me, dizer:

"O problema de Portugal é de inputs e outputs."

Desliguei, ninguém estava e ver, deitei-me algo inquieto e até ao momento ainda medito em tão profunda e premente e insofismável e incontornável verdade!
É a input da vida!

Navegabilidade do Guadiana

O Secretário de Estado das Obras Públicas, Jorge Costa, em reunião com representantes da CCDR, AMDB e com o Presidente da Câmara de Mértola anunciou o interesse do Governo em rapidamente tornar o Guadiana navegável de Vila Real de S. António até Mértola, deixando a promessa que já em Maio regressará para apresentar o respectivo projecto.
Esta notícia surge em vários orgãos de comunicação regionais e nacionais sem relevo especial e secundarizada em relação aos lamacentos processos do aeroporto de Beja e do desenvolvimento do Alqueva.
É pena, porque o impacto desta medida para o desenvolvimento turístico e comercial na raia sul deste país será muito mais rárido, eficiente e potenciador de resultados bem mais palpáveis a médio prazo que os outros embróglios. Aliás, o empresário Jorge Ferreira já manifestou por diversas vezes i interesse em explorar cruzeiros turísticas nesse futuro espaço à semelhança do que iniciou e prossegue com sucesso no Douro. Estou até certo que a pressão do empresário junto do Governo para acelerar a obra foi determinante para uma rápida decisão.

De facto, se à primeira vista nos poderá parecer que o Governo cederá a pressões de interesses privados, eu prefiro pensar que essa pressão do sector privado é salutar pois indicia um interesse efectivo na concretização da exploração económica do projecto, contrariamento ao que sucede com o hipotético aeroporto ou o Alqueva. Nestes dois últimos empreendimentos, apesar do que aparece dito, a garantia de interesses de exploração internacionais que ninguém viu confirmados, no caso da navegabilidade do Guadiana eles são inequívocos por parte de um empresário português que certamente não deixará, à semelhança da exploração turística do Douro, de criar e sustentar vários postos de trabalho e trazer valor acrescentado para a região!
Venha o projecto, venha o Sr. Mário Ferreira e venham projectos para o nosso cada vez mais deprimido Alentejo com virtualidades de viabilização reais e concretas a médio senão a curto prazo.

abril 26, 2004

Da Contemporaneidade e da Paranóia da "Criatividade"

Inspirado pelo post de Francisco José Viegas, sob o título «O Medo do Brilho» onde, com um discernecimento escorreito, aborda a questão da contemporaneidade dos clássicos, do seu brilho intrínseco, a propósito da crítica de Eduardo Prado Coelho à nova encenação de Ricardo Pais de "Hamlet", cuja leitura íntegral recomendo, dei comigo a pensar sobre as "novas" tendências dos grupos de teatro em Portugal.
É cada vez mais raro encontrarmos nos palcos portugueses as obras da dramaturgia clássica, aquelas que fizeram o teatro ser teatro ou, quando se representam estão envoltas numa nublosa encenação que tenta, através de artifícios tecnológicos e/ou técnicas de encenação anacrónicas, introduzir (penso eu?) traços contemporâneos que, a meu ver, mais não fazem que descontextualizar o «brilho do texto» (nas palavras de FJV) sem nada acrescentar de substancial.
Parece existir e fazer escola que ser contemporâneo obriga a uma "criatividade" deslumbrada onde os artifícios do cenicamente inesperado e, por vezes chocante, são objecto em si mesmo e não instrumentos à disposição do encenador para realçar a(s) mensagem(s) no texto contida. Ou seja, parece-me que os profissionais do teatro têm sido mais influenciados pela estética cinematográfica de matiz hollyhoodesca, onde o sucesso é medido pela quantidade de efeitos especiais, concepções laboratoriais e computurizadas do tratamento da imagem e do som, relegando para o domínio do desprezível o argumento e a rte de representação. Não é por acaso que o filme que mais óscares recebeu, incluindo o de melhor filme do ano transacto, não tenha conseguido nenhumas estatueta no que concerne ao argumento, actores principais ou secundários! Julgo mesmo ter sido a primeira vez que tal ocorreu na história dos premiados de Hollyhood. Ou seja, a estética da produção, em vez de se confinar ao seu primo objecto, o de realçar e contextualizar o texto, passou ela própria a ser o espectáculo, dispensando o texto e consequentemente a necessidade da sua efectiva representação.

Este movimento colocado à ideia de desconstrução e à tendência de contra-cultura pós-modernista poderá conseguir, a espaços, momentos de criatividade brilhantes, mas parece incapaz, por medo ou opção, de nos revelar o esplendor do texto dramatúrgico, da palavra, do verbo, do enredo.
São como preferem hoje designar-se profissionais de artes performativas em vez de grupos de teatro, o que se explica pela paranóia da busca patológica de uma criatividade a todo o preço que a maior parte das vezes nos surge feita de colagens sem nexo, ou muito pobres de conteúdo quando comparadas com os clássicos, onde os efeitos da sonoplastia e do multimedia ocupam o lugar central, numa estética que se afirma pelas sensações visuais e sonoras imediatas e perenes, não procurando despertar no público o interesse de uma teia argumentativo/figurativa de um texto.
Este movimento, que ainda faz escola em Portugal e parece querer permanecer ainda por uns tempos, está para o teatro como o experimentalismo de Pierre Henry, a "música concreta", esteve para a música clássica - um período meramente experimental que nada acrescentou, datado e enterrado como uma breve experiência, exactamente, afinal, o que se tinha proposto e até como o "Frre" para o Jazz. Marcaram uma época, profundamente é certo, mas nada acrescentaram ao já realizado nem deixaram escola.
O rigor pelo texto regressou à música dita erudita, mesmo à contemporânea, onde os compositores são mais exigentes na escrita e na representação da sua criação e no Jazz já desde Parker que não conhecíamos um movimento tão profundo de regresso às raízes com o intuito de busca da inspiração prima para se refundar, recriar, e reconstruir como manifestação cultural afro-americana.
Excluindo casos pontuais como o da Cornucópia, onde sabemos que pelas maõs de Luís Miguel Cintra a vivência do texto permanece no cerne do desenvolvimento criativo, parece que a generalidade dos grupos optou por uma paranóia criativista purgada da substância que substancia o próprio teatro.
Mas, o experimentalismo como objecto, à semelhança do que aconteceu nas demais artes, será breve e datado, ficando para a história exactamente enquanto tal - um movimento experimental breve e não consequente.

abril 23, 2004

Vícios do Rotativismo em Democracia

Desde o primeiro governo da Aliança Democrática que somos governados pelo PSD e pelo PS, com breves alianças com o CDS/PP. Para o bem e para o mal estes dois partidos são os responsáveis pela situação actual do nosso país, pela condução dos nossos destinos há quase 25 anos.
À distância, o republicanismo e a ditadura, foram momentos de excepção no prosseguir de um "rotativismo" clientelar que já vinha de oitocentos e de uma alternância processual e não ideológica. Com efeito, após a Revolução Liberal de 1820 que derrubou o Antigo Regime e um breve período de consolidação do regime liberal (digamos, até 1836), que Portugal é governado por duas tendências mais processuais que ideológicas - as da contenção das despesas do Estado, com a poupança como objecto, e as de "modernização" das infra-estruturas de transporte e circulação. Curiosamente, apesar do cumprimento dos ideais liberais de separação dos poderes, nunca os portugueses ousaram retirar ao Estado o poder de único e credível motor do desenvolvimento económico. Navegámos sempre num misto de liberalismo institucional e um centralismo estatal económico e social. Ao olharmos para trás e pensarmos nos governantes que tivémos facilmente os enquadramos numa ou noutra tendência. Do poder interventivo do Estado é que ninguém ousou questionar.
Por sermos pequenos? Por nos afastarmos cada vez mais do explendor do Portugal de quinhentos? Não sei, é matéria para a história das mentalidades e para a sociologia.
Mas o acordo para a revisão constitucional de ontem é mais um passo neste sentido.

À parte as questiúnculas do Preâmbulo da Carta, o acordo de ontem revela, mais uma vez, que não há oposição à governação do país, que os dois partidos aceitam tàcitamente o rotativismo a que se acomodaram, estando sempre de acordo com as matérias de fundo, aqueles que poderiam realçar uma qualquer diferença ideológica identificante!
Não admira que, sem disso se aperceberem (ingenuidade?), acordam uma revisão constitucional a reboque de uma imposição das suas famílias europeias, retirando a Portugal, que representam, substancial parte da sua soberania (que nem sequer ainda se conhece até que ponto e em que medida), sem mandato efectivo nem consulta popular!
Ora, esta atitude é da maior arrogância anti-democrática e mesmo anti-liberal, i.e., os nossos representantes, ora no governo ora na oposição, partilham a opinião da superioridade do Estado face aos cidadãos sempre que pensem ou haja indícios que estes nunca plebiscitariam o que eles sem mandato específico a todos nos obrigaram. Esta é a cara mais visível do «Bloco Central», nas palavras de Francisco José Viegas, que nos cerca e aprisiona!
Será isto grave? Se calhar não é, é recorrente e os portugueses não têm manifestado, ao longo da sua história recente, grandes descontentamentos pela usurpação da sua representatividade. No entanto, sempre me restam duas interrogações:

1 - Onde estão todos esses arautos e acérrimos defensores do neo-liberalismo, da redução do Estado intervencionista?
2 - Onde estão todos esses social-democratas que enchem os pulmões para denunciar a ausência de mandatos (mesmo internacionais)?

O fundamento da Democracia é o plebiscito e a representatividade daí decorrente. Quando os partidos de poder subtraem ou usurpam aos cidadãos a sua representatividade não há espaço nem para a consubstanciação do liberalismo nem da democracia!

Dia Mundial do Livro

Não, aqui para baixo não vão ser distribuídos livros nos transportes públicos. Nem aqui nem ali, só em Lisboa!
De todo em todo a nossa Biblioteca Municipal José Saramago tem um programa digno de merecer uma adesão muito alargada. Ora vejam:

Cave:

17H00 - Histórias ao Largo - Mestre Elias e a sua Companhia de Bonecreiros
18H30 - Histórias de Zulia
19H30 - Taticrislim a cozinheira das histórias
21H30 - A Consulta do dr. Todos leu - Consultório de Leituras
22H30 - Mãos que desenham a noite - Atelier de actividades plásticas.

Auditório:

21H00 - Conferência com Pedro Strecht - "Abuso sexual de Menores"
21H45 - Conversas com Livros e Imagens - José Manuel Fernandes entrevista Luís Afonso
22H30 - AQUI, ACONTECE! - com Carlos Pinto Coelho

Cafetaria:

23H30 - O Veneno Universal - José Luís Peixoto & Fernando Ribeiro (Moonspell)
24H00 - Vozes e Estórias da Galiza

nota: a programação aqui reproduzida está publicada na Praça da República, donde foi retirada.

«Coisas da História do Alentejo e do Campo de Ourique»

Sob o título que reproduzo, o Francisco Nunes, na sua Planície Heróica, tem desenvolvido textos preciosos sobre a hisória do Alentejo.
Esta chamada da vossa atenção pode ser tardia, mas pela insistência do Francisco (já vai no VI) recomendo vivamente a sua leitura integral.

abril 22, 2004

«Abre-se caminho, caminhando»

«As crises (...) educacionais e culturais fazem com que a cultura e a educação sejam cada vez mais ricas e plurais, que o «Bem» seja sempre uma constante busca que só parcialmente alcançamos, e uma vez alcançado nos deixe sempre insatisfeitos e, portanto, com a possibilidade de continuar procurando. «Malditas as educações que satisfazem». O satisfeito já não procura porque está saciado; quem já encontrou a verdade não necessita do diálogo, só pretende a imposição. «Pelo bem de todos» cometeram-se os mais terríveis crimes, ditaduras e dogmatismos ao longo da história. Somos firmes na procura de um permanente fazer-se. «Abre-se caminho, caminhando».

Enrique Gervilla em «Postmodernidad y Educación - valores y cultura de los jóvenes»

«(...) é preciso criar campos de coexistência»

«Contra o ideólogo Samuel Huntington, prefiro a opinião de Edward Saïd. Samuel Huntington quer fazer das "civilizações" e das "identidades" aquilo que elas não são: a saber, entidades fechadas, seladas, expurgadas das miríades de correntes e de contra-correntes que percorrem e animam a história humana e que fizeram com que ao longo dos séculos a história ficasse repleta não só de guerras de religiões e de conquistas imperiais, como de trocas, de fertilizações cruzadas e de partilha. O paradigma de base: "Ocidente contra: tudo o resto (é a oposição da Guerra fria, reformulada) é o paradigma que vigora ainda depois do 11 de Setembro que o maniqueu Berlusconi brande para açular as paixões colectivas em nome do Bem contra o Mal, da Liberdade contra o medo, etc. É preciso repensar a guerra dos clichés e o poder das simplificações - a retórica utilizada pelos combatentes auto-proclamados da guerra do Ocidente (a América em particular) contra aqueles que os odeiam e ameaçam. É preciso desconstruir as expressões que veiculam a ortodoxia da globalização (mundialização) e que funcionam como falsos universais destinados a criar um unanimismo tácito: "o mercado", "privatização", "meios de governo", "o Ocidente", o "clash das civilizações", "os valores tradicionais", "identidade". É preciso mostrar aquilo que verdadeiramente nos deve ocupar: a interconexão de vidas inumeráveis, as "nossas" e as "suas". Em vez de criar campos de batalha, é preciso criar campos de coexistência.»

José Augusto Mourão - em "Caos Cultural da Mundilização"

abril 21, 2004

«Fazer Nascer, por sobre as Marcas...»

«(...) o que é próprio do saber não é ver nem demonstrar, mas interpretar» para «restituir a grande planície das palavras e das coisas, (...) falar de tudo, (...) fazer nascer, por sobre as marcas, o discurso ulterior do comentário».

Michel Foucault em "As Palavras e as Coisas"

António Pinho Vargas na RTP 2 no dia 25 de Abril

No próximo Domingo, dia 25 de Abril, na RTP 2, às 22.00 é exibido o documentário:


"António Pinho Vargas – notas de um compositor"
Realizado por Manuel Mozos e montado por Luís Correia em 2002
Produção de Culturgest, LxFilmes e RTP

com depoimentos de:

Augusto M. Seabra;
Miguel Henriques;
Luís Tinoco;
João Madureira.

participam:

Orquestra Sinfónica Portuguesa;
Coro do Teatro Nacional de São Carlos, dir. João Paulo Santos;
Orquestra Nacional do Porto, Miguel Henriques, Elizabeth Davis dir. Martin André;
Solistas da OrquestrUtópica;
Drumming- Grupo de Percussão;
Solistas das óperas Édipo, tragédia de Saber e Os Dias Levantados,
entre outros.

“não julgo ser possível que, daqui por uma ou duas décadas, a vida musical continue organizada como até hoje”
António Pinho Vargas

abril 20, 2004

Lá se vai o Santos Nicolau...

Ficam os cromos, como vogais, especialistas de coisa nenhuma!
(Notícia na Rádio Pax).

CANCRO DA MAMA - Ajuda à distância de um clique

O Site do cancro da mama está com problemas pois não têm o número de acessos e cliques necessários para alcançar a quota que lhes permite oferecer uma mamografia diária gratuitamente a mulheres que não têm recursos financeiros bastantes.
Demora menos de um segundo para ir ao site e clicar na tecla cor-de-rosa que diz "Free Fund Mammogram".
É pelo número diário de pessoas que clicam que os patrocinadores (Avon, Tupperware,....), a troco da publicidade, oferecem a referida mamografia.

O sítio é este: http://www.thebreastcancersite.com/, mas poderão ir directamente por este link.

abril 18, 2004

O Défice Encapotado - Câmara do Porto (um caso idêntico a tantos outros)

Na semana finda a Câmara do Porto aprovou o relatório de contas de 2003, conseguido com o voto de qualidade do seu Presidente.
Não o conheço em pormenor (pelo que me dispenso de considerações não baseadas em factos), mas o que foi dado a conhecer pelos orgãos de comunicação é preocupante, por um lado, e por outro deve-nos deixar a pensar seriamente sobre as contas do Estado já que, estou certo, as evidências da Câmara do Porto poderão ser extrapoladas para a esmagadora maioria dos municípios portugueses.

De facto, a gestão de Rui Rio reduziu a dívida de 44,2 milhões de euros para 32,1 milhões o que, à primeira vista poderá considerar-se como um sucesso. Confesso não conhecer em que sectores e de que forma foram conseguidos reduções consideráveis, embora o corte quase total de subsídios à cultura e educação devam encontrar-se entre os principais contributos para a referida redução – o Rivoli, o S. João, o Campo Alegre, o Planetário, o Balleteatro, o “Fantas”, o “Intercéltico”, o “Festival de Jazz”, enfim todos os grupos independentes de teatro, terão tido, com toda a certeza, uma quota muito expressiva para esse resultado.
No entanto, contrariamente ao que seria de prever, a verdade é que a cidade em nada beneficiou com esse apertado laço à cultura. É que o endividamento da Câmara cresceu apesar dos substanciais sacrifícios a que sujeitaram os munícipes – cerca de 15 a 20 milhões de euros! Isto é, a sua dívida mantém-se inalterável na casa do 60 milhões de euros.

Mas, sabendo nós da imposição deste governo em impedir a contracção de empréstimos bancários, como é que é possível que a dívida aumente?
Simples, a Câmara avança com os projectos financiados pelo poder central, este não paga às autarquias e estas, impedidas de contrair empréstimos para pagar aos seus fornecedores (como sempre o fizeram), também não pagam!
Ou seja, o Estado, para além de não honrar os seus compromissos, nas suas contas não constam estes défices nem dívidas, mas sim nos das Câmaras, onerando as empresas grandes, médias, pequenas e micros, espantando-se depois que estas não apresentem lucros passíveis de tributação, que o desemprego dispare em flecha e as falências atinjam números inusitados e simultâneos com a contracção assustadora do número de constituição de novas empresas!
Este é um dos embustes financeiros mais ardilosos no contexto do cumprimento do orçamento do Estado com a agravante de ser extremamente penoso para a actividade económica, em geral, e empresarial, em particular! Se no orçamento de Estado se pudesse detectar o montante em dívida do Estado aos Municípios, acho que A Comissão Europeia encontraria mais que razões para obrigar, no mínimo, ao rigor e transparência das contas públicas.
Desta forma, a manter-se como está, serão as empresas e seus funcionários a sofrer com as habilidades (para não chamar outra coisa mais feia) que o “rigor” e a “transparência” por que este governo sempre disse pugnar.
E, no mínimo, pede-se que deixem de se mostrar pateticamente perplexos perante as câmaras das televisões com a diminuição do número de empresas que conseguem lucros passíveis de serem tributados! Acha um mínimo de decência!

abril 16, 2004

«ABRIL COM "R"»

Abril com "R"

"Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois."


Manuel Alegre

abril 14, 2004

O Iraque e a Má Fé

Passo pelo Klepsydra, pelo Causa Nossa, depois vou às Terras do Nunca, derivo para o Abrupto e para o Bloguítica, leio o editorial do JMF no Público e fico com a sensação de que poderá mesmo tratar-se de má fé, a toda a argumentária em torno do estado a que conduzimos o Iraque, à falta de outra coisa, em nome do derrube de uma facínora ditadura.

De facto, quem hoje consegue jogar argumentos que ainda justifiquem a invasão do Iraque ou é má fé ou, irremediavelmente um caso patológico. Mas estas situações são ainda menores se atendermos que a sua combinação é muito amis perigosa - um caso patológico de má fé!

Não, não defendo a retirada do Iraque, não por cobardia, não pela instauração à força da "democracia", não pelo petróleo, mas porque somos nós Ocidentais, os únicos culpados da merda que lá fizemos e continuamos a fazer!
Pelo que disse considero que devemos muito àquelas gentes e somos eticamente responsáveis, não por lhes entregarmos um país perfeitamente destruído (da economia à saúde, do petrólio ao abastecimento de água), mas sim pela reposição das condições de vida que beneficiavam (as melhores de todo o mundo árabe) antes dos sucessivos embargos e invasão a que os sujeitamos. Sem Saddam, é certo, mas com o nível de vida de que beneficiavam.
Uma retirada do Iraque neste momento seria eticamente indefensável pois significaria que, em última instância, nos estamos todos, nós ocidentais, borrifando para a sua condição, invasores e não defensores da invasão.
Agora, continuar a justificar a necessidade dessa invasão não é má fé - é uma questão patológica que merece cuidados do foro psiquiátrico.

abril 13, 2004

«Quintas ETNO»

Todas as últimas quintas de cada mês, entre as 18 e as 20 horas, até Novembro o INET - Instituto de Etnomusicologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa promove os «Colóquios Mensais de Etnomusicologia», na Sala de Seminários do Departamento de Ciências Musicais (4º Andar), com entrada livre (consultar programa).

Não será motivo de inveja (aliás a inveja perante a obra realizada, apesar de muito corrente entre nós, para além de condenável é absolutamente improdutiva e incapacitante), mas o que algumas pessoas, associações e escolas têm conseguido fazer pela música etnomusicologia em Portugal é, no mínimo embaraçante, senão ridículo, para muita "intelectualite" bem falante da área da música erudita portuguesa, em especial atendendo ao que o Estado investe, financia e subsidia!
Enquanto uns falam, outros fazem! E quando assim é, a diferença de resultados e benefícios educativos para a população são avassaladores!

Casa da Música - esclarecimento

O texto que ontem escrevi sobre a perda que a Casa da Música sofreu com a demissão de Fausto Neves motivou o recebimento de alguns emails, em geral de pessoas bastante preocupadas com o desenvolvimento daquele projecto, que aproveito para agradecer, 3 dos quais manifestando alguma perplexidade no que respeita ao que disse sobre o "deserto" de competências nacionais no que concerne à Educação Artística. Com efeito, relido o que escrevi, poderei ter sido menos assertivo no que pretendia transmitir. Reproduzo para melhor se entender:

"(...) Para mais, esse conhecimento, "Know how", não é coisa que se estude, é assunto que a sabedoria advém proporconalmente aos anos de exercício efectivo, num país em que a didáctica e o desenvolvimento curricular das artes em geral e da música, em particular, é um deserto. Um deserto de competências, mas também legislativo e organizacional (atente-se que Portugal não tem um único mestre, pós-graduado ou doutor, em educação artística!)"

Ora, o que eu queria dizer é exactamente o que escrevi, i.e., não há em Portugal um único especialista académico em Educação Artística. Entenda-se, por favor, no ramo das Ciências da Educação, no desenvolvimento curricular e didáctica específica da arte e não, como parece terem alguns leitores entendido, no ensino da música, da dança, do teatro, das artes em geral. Neste particular, Portugal, apesar dos muitos contratempos e do desinteresse pela instituição de uma política educativa que incorpore a educação artística em equidade curricular com os demais ramos do conhecimento, deu um salto qualitativo notável, em especial à custa dos nossos músicos "estrangeirados", aqueles que após a conclusão dos seus cursos foram beber por essa Europa fora os conhecimentos e a vivência artística que o nosso país não conseguia nem consegue proporcionar.
Espero que, feito esclarecimento, não restam dúvidas quanto ao que pretendi, e só, exprimir.

abril 12, 2004

Casa da Música - avanços e inquietações

Por diversas vezes dei destaque à gestão da Casa da Música como um exemplo a evitar no que concerne à gestão de equipamentos culturais, em especial, tudo o que decorreu antes de Alves Monteiro aceitar a Presidência do Conselho de Administração. Afirmei que este gestor era, para mim, um garante do rigor, apaixonado embora, necessário à prossecução do projecto, evitando que continuasse a navegar ao sabor de interesses partidários, camarários, pessoais e, em especial, de "lobbies" há muito instalados no meio musical portuense, dali se estendendo, qual polvo encapotado, para todo o país.
Alves Monteiro iniciou o seu trabalho cumprindo cautelosa mas firmemente a missão a que se propôs (pode-se ver aqui), longe dos holofotes da ribalta mediática que muito gratificantes poderão ser a nível pessoal, mas incompatíveis com uma gestão que antes de se cumprir tem de mandar o lixo para o lixo e conservar o que valia e não tinha sido feito, i.e., "arrumar a casa".
Cedo, e salomonicamente, mostrou não ceder a pretensões mesquinhas e vazias de sentido profissional, nomeando Pedro Burmester para seu assessor único, mantendo deste forma uma valia que não poderia encontrar noutro personagem - a memória e a justificação do já realizado. Contudo, a Casa da Música, não manteve a figura da direcção artística no seu novo organigrama - apenas administração e executores.
Daí que não assista a Pedro Burmester qualquer razão em sentir que a nomeação de Anthony Withworth -Jones possa ter um sentido de retirada de confiança do Presidente do Conselho de Administração, uma vez que nunca tal foi prometido e a não nomeação do músico para essas funções não augurava que Alves Monteiro tivesse, aprioristicamente, intenção de resolver essa delicada lacuna organizacional com o seu nome
Poderá ter sido surpresa para muitos, mas para quem conhece a correcção pessoal e profissional saberia que o novo gestor, ao abraçar o comando de um projecto que saía do âmbito que conhecia, iria antes do mais inteirar-se da especificidade da gestão da coisa cultural, deixando espaço para, a seu tempo, tomar as decisões que considerasse mais adequadas. E a nomeação de A. Withworth-Jones (ver aqui o seu percurso profissional) mais não confirma senão a segurança de entregar os destinos da programação a quem já possuía créditos firmados, estivesse disponível e exigisse uma remuneração adequada ao projecto.

Poderia ser evidente que a contratação de Pedro Burmester para essas funções era, como diziam, incontornável, mas a nomeação de um estrangeiro experimentado em palcos mundiais deitava essa "pressão" de matiz "lobbística" por terra. Assim, muitos poderão ter pena de não ter sido Pedro Burmester o eleito, muitos poderão "torcer" para que corra mal com o actual, mas não se ouviu uma única voz a desmerecer a esmagadora experiência do novo director artístico. Pedro Burmester saiu, com honra, diga-se (não foi em momento algum enxovalhado pela actual administração, nem tal seria aceitável, como aconteceu em passado recente), mas certamente entristecido, mas a responsabilidade de formar equipa não era a ele que competia e, por tal, não considerei oportuno, em Fevereiro, pronunciar-me sobre essa ocorrência.
No entanto, uma outra mais recente, embora sem visibilidade mediática (ah como os media querem e precisam de nomes que vendam...), inquieta-me de sobremaneira - a demissão de Fausto Neves do "Serviço Educativo" e a quase imediata nomeação do director artístico, em acumulação de funções, para assegurar essa tarefa. É que, sem barulhos nem buscas de ocos protagonismos, Fausto Neves deu muito à Casa da Música. E deu porque em si encerra a experiência de uma vida a dar, aos jovens pela música, tradição que já de seu pai lhe adveio, e com inquestionável obra em Espinho - na Academia, na Escola profissional, no Coro, enfim uma obra que não precisa nem de apresentação nem de protecções de "lobbies". Está à vista de quem quiser ver. Não é insuflada, não é de "curriculum vitae", é curricular.
Ora, Fausto Neves era a pessoa certa no lugar certo! Não reconheço, em Portugal, na sua geração, ninguém com a sua experiência e dedicação neste particular contexto. E, não fora já esta uma preocupação bastante, adiciona-se uma outra não menos imperativa - a da entrega de um "Serviço Educativo" a quem desconhece, por completo, o panorama português, não só as suas particularidades legais, como especialmente as carências curriculares, sociais e financeiras e terriroriais. Para mais, esse conhecimento, "Know how", não é coisa que se estude, é assunto que a sabedoria advém proporconalmente aos anos de exercício efectivo, num país em que a didáctica e o desenvolvimento curricular das artes em geral e da música, em particular, é um deserto. Um deserto de competências, mas também legislativo e organizacional (atente-se que Portugal não tem um único mestre, pós-graduado ou doutor, em educação artística!)!
Das duas uma, ou Alves Monteiro insiste na pessoa do director artístico para desenvolver o "Serviço Educativo" da Casa da Música não restando ao responsável importar um qualquer modelo estrangeiro, desadequado às nossas carências ou a acumulação de funções de Withworth-Jones é mais uma medida de Alves Monteiro para medir os danos causados pela demissão de Fausto Neves e conseguir tempo para decidir, mais uma vez, com rigor e propriedade.
Opto pela segunda hipótese, a de confiar no Presidente do Conselho de Admnistração, mas vinco que a demissão de Fausto Neves é uma enorme perda para o projecto Casa da Música. Não sei, confesso, se reparável.

Liberalismo - uma doutrina de exportação

Sejam bem regressados, com retemperadas forças e, como sói dizer-se, com mais propensão para auto-estima, é o que desejo a todos para combater as notícias de degradação persistente do modelo económico e, consequentemente, social que privilegiamos e defendemos - a nossa democracia.

Vem isto a propósito de quase tudo. Do Iraque, certamente, das ameaças de ataques a cidadãos, com certeza, mas também desta notícia que me apanhou mesmo desprevenido! Não é que 61% das empresas norte-americanas não pagaram impostos entre 96 e 2000, e ninguém lhes cola o rótulo de ladrões!

Como tenho dito, o liberalismo é uma mera doutrina de exportação das economias mais fortes para as mais fracas. É o"leit motiv" da exploração de países terceiros com economias mais débeis, por parte das economias mais regulamentadas e proteccionistas do mundo.
É com o liberalismo económico doutrinário que a "mão invisível" do Adam é substituída pela mão invisível da "finantia" sem rosto, que domina a seu bel prazer os mercados globais e as economias nacionais!
Não me espanta, até será compreensível. O que me enternece são os "pensadores liberalizantes" das economias desprotegidas!
E assim, vamos alegremente promovendo a auto-estima!

abril 09, 2004

Mulher, porque choras? (José Augusto Mourão, op)

1. - Dizem-nos os textos desta noite que Deus é o nome do sopro-palavra que fez emergir aquilo que dormia no abismo do não ser. Dizem os textos desta noite que Deus é o sopro e a palavra que criam a possibilidade de ser um novo corpo e uma nova vida. Que a "elevação" de Cristo começou na Cruz. Que a nossa ressurreição só é possível a partir do nosso baptismo em Cristo e no seu corpo de glória. Que a comunidade cristã se tornou o corpo do Cristo vivo.

2. - "Porque buscais entre os mortos aquele que está vivo? Os anjos delimitam e articulam entre si um espaço directamente referido ao corpo de Jesus na sua integridade (da cabeça aos pés) e à sua sepultura. Eles assinalam o corpo ausente que as lágrimas de Maria procuram.

3. - O sepulcro aberto é um ponto de encontro e de separação, um espaço a ler, a ver, a acreditar. Mas ler não é ver. O sepulcro propõe um espaço a ler. Entre ver e acreditar é preciso ler para entender. Ler não é reconstituir um mundo verosímil mas articular as ligaduras e o sudário às letras da Escritura. Os traços descobertos no sepulcro, marcas da morte, da ausência e do vazio, constituem a Escritura como um texto cuja opacidade atesta a vida da palavra e cuja textura remete para o horizonte dum corpo a vir e para a impossibilidade de nos apropriarmos dele num espaço homogéneo.


4. - O sepulcro aberto separa aparentemente um aqui e um algures: se não está aqui é porque o levaram algures. Mas de facto o discurso da narrativa deforma o espaço homogéneo: Maria vê Jesus (sem o conhecer) fora do sepulcro. Há uma outra face do visível a procurar, a acreditar, dizem os anjos. A ressurreição consiste em ter um corpo diferente do corpo físico; ressuscitar é tornar-se um corpo histórico. Uma comunidade.

5. - Os textos desta noite dizem-nos que Deus não recusou partilhar a grande e profunda tristeza dos homens. Que a recusa da encarnação é o ferro de lança do pecado. Recusar estar no meio dos irmãos perdidos, encarnado como eles, exposto aos mesmos perigos e desesperos é não estar a seguir Jesus Cristo que foi enviado pelo Pai a esse lugar de cruzes que é a vida. Dizem estes textos que a recusa da ressurreição é outro ferro de lança do pecado. Que Deus em Cristo nos salva do poço em que nos fechamos, que vem ter connosco na nossa carne, na miséria e na morte. Na cruz de Cristo o real da vida que se dá é mais forte que a imagem da morte que a esconde, a graça do dom é mais forte que o pecado que, na aparência, a nega.

6. - São as heresias que sublinham unilateralmente a humanidade de Cristo, a sua exterioridade à transcendência divina. São as heresias obsecadas pelo puro e pelo original, maniqueístas, que bloqueiam a fecundidade da incarnação e da ressurreição. A radicalidade da determinação do infinito no infinito é a Paixão: Deus enquanto Filho morre. O infinito sobe ao calvário, dizia Hegel. Mas a ressurreição significa a contra-determinação (o limite da morte) pela infinidade do Pai: o Filho resssuscita e vai ao encontro do Pai.

7. - Há noites que metem medo. Porém, o que mete medo é a noite do imaginário sem desejo, não a noite da fé. Donde vem o medo senão de deixarmos de ver como se vê agora? "No fundo da sua Noite, a nossa carne é Deus", escreve M. Henry (I, 373). "Deus gera-me como a si próprio" dizia Eckhart. Não podemos recusar a história e a linguagem em que a árvore da vida e a árvore do saber se tocam. Não, Paulo não traiu o "alegre saber" de Jesus, como Nietzsche suspeita. Não, o cristianismo não é a religião absoluta.

8. - Tudo conspira contra a fé no além da morte: a mentalidade do trágico, a tecnologia, os genocídios vários, a sabedoria do mundo, epicurista, surda. No meio desta paisagem de cinza só os mártires enfrentam o desafio da fé na ressurreição. O que talvez seja um traço fundamental do viver dos nossos dias é a perda da experiência do limite. "A nossa cegueira actual (naquilo que podemos ver dela) não se estabelece no quadro da obediência/desobediência, antes da suspensão da experiência do limite, que a actividade científica puramente operatória traduz como 'porque não sabemos', 'porque ainda não foi possível, mas todos os esforços vão nessa direcção", mesmo que o limite se chame mortalidade, a essência mortal do homem: 'se os nossos canais não se entupissem, não morreríamos, procuremos um expediente para tornar eterno o trânsito dos nossos canais" (Filomena Molder).

9. - Comprazemo-nos a contar a saga da saída do Egipto, a terra da escravidão. Mas continuamos escravos de alguma coisa. Não há comunidade histórica que seja indemne. Continuamos com medo de morrer, sedentos de viver, continuamos a apertar as mãos e a fugir uns dos outros e a matar outros. O inferno é hoje uma categoria política, uma noção forjada para governar os homens (H. Arendt). Nós instauramos o inferno entre nós. Comprazemo-nos com as alegrias da destruição, envenenadas pelo ódio de que procedem. As grandes tentações não são da carne, mas do poder (do dinheiro, das autoridades políticas e das autoridades eclesiásticas).

10. - Acrescentemos aos textos desta noite um texto do "confessor" Wittgenstein. "A sabedoria é algo de frio e, nesta medida, de estúpido. A Fé, pelo contrário, é uma paixão. Poderíamos dizer também a sabedoria apenas dissimula a vida. A sabedoria é como uma cinza fria, cinzenta, que cobre as brasas". (RM, 69). Ou a religião tem um interesse existencial que me inclina a acreditar na Ressurreição de Cristo, ou reduz-se a um palrar sem interesse. Se não há ressurreição, então ele decompôs-se no sepulcro, como qualquer um de nós. Ele morreu e decompôs-se. É então um mestre como todos os outros e não pode socorrer-nos, estamos de novo órfãos e sós. Ficamos com a sabedoria e a especulação. Estamos como num inferno, em que só podemos sonhar, separados do céu como por um tecto. Mas se devo realmente ser salvo, então é duma certeza que tenho necessidade, não duma sabedoria, de sonhos, de especulação - e essa certeza é a Fé. A Fé é fé porque é a minha alma com as suas paixões, por assim dizer com a sua carne e o seu sangue que deve ser salva, não o meu espírito abstracto. Talvez se possa dizer só o amor pode acreditar na ressurreição" (RM, 44-45).

11. - Nós não estamos petrificados diante de um túmulo vazio. Não estamos a refazer o caminho de Maria e das mulheres. Não procuramos o corpo no lugar do sepulcro. Que fazemos então? Olhamos, contemplamos, vemos e acreditamos, como Pedro ou o outro discípulo que "viu e acreditou", não como verificacionistas. Para os leitores que somos hoje, o texto de Mateus exige uma modificação do regime das nossas percepções, das nossas crenças e dos nossos envolvimentos. Jesus não é invisível, mas é não-visível porque a visão que ele requer é o contrário do visível. É preciso adaptar a visão e a escuta, passar ao espaço da leitura na fé. O corpo que Maria procura revela-se um sujeito de fala que nomeia e institui para a missão. O espaço da narrativa deforma-se quando, ao apelo do seu nome Maria se volta à voz que a chama. O visível transforma-se em visual: "Eu vi o Senhor". Acaba aqui a tese do roubo do corpo morto. Maria é instituída, não para contar sempre a mesma história do roubo do seu Senhor, não para ver e acreditar como o outro discípulo, mas para ver e dizer (anunciar): "Eu vi o Senhor e eis o que ele me disse".

12. - Falar é dar, é inscrever-se no dom da palavra. Inscrever-se numa falta à totalidade: não é possível dizer tudo. O gesto da mulher que derrama o frasco de perfume aos pés de Jesus é um acto de fala silencioso. Nós refazemos a memória desse gesto que se inscreve na trajectória do corpo de Jesus segundo as Escrituras. É o terceiro dia que este gesto prefigura. O corpo a vir, é um corpo a dizer, a redizer, a proclamar, um corpo impregnado pelas falhas das nossas palavras que se arriscam no acto da proclamação: surrexit Dominus vere!

13. - O impensável tem um lugar: este lugar é o real do corpo. Aí está a loucura do pensamento Paulino relativamente ao pensamento grego e ao pensamento judaico: a espécie humana está prometida à salvação; a lei antiga deixou de valer, o Templo rasgou-se como um vaso de incenso inútil, a história do começo adâmico é relançada de outra forma. Acabou o delírio da eleição, a paranóia feroz num Deus que me teria escolhido, a mim e ao meu povo. Acabaram-se os privilégios. Todo o mundo será salvo. O novo templo é o corpo de Cristo. A essência humana, a definição do homem como tal mudou de base, o homem deve ser apresentado como um corpo novo à imitação do corpo de Cristo. O homem novo é o homem ressuscitado a partir da ressurreição de Cristo. E nós somos o corpo de Cristo a caminho.

14. - Liberte-nos o Jardineiro da "fadiga de estar sempre perante uma resposta", sem cair na noite do imaginário, vazia de corpo e de promessa. Rompamos a noite contínua e de silêncio em que os loucos vivem. Não nos imobilize a tristeza da morte e dos ritos sem carne. A luz do ressuscitado aumente a nossa potência de agir, a força de existir na alegria porque a esperança estira o nosso desejo. Voltará o Inverno, a solidão e o medo, mas agora já podemos esperar a primavera porque "Deus respira em nós de modo tão pleno" (J. Coltrane) que até a voz se solta e a jubilatio é o vestido de carne com que fazemos a passagem.


Deixo-vos com este texto de José Augusto Mourão, op, desejando-vos boa Páscoa.

abril 08, 2004

A Visita ao Conservatório

"Saímos da nossa escola às 9h 15m e chegámos ao conservatório às 9h 30m.
Houve uma senhora que nos recebeu. Depois o professor Nuno mostrou-nos várias coisas sobre o cravo, o piano, o acordeão e o orgão. Sobre o piano aprendemos por exemplo que tem 88 teclas, que tem um martelo para bater nas cordas e dar som.
O acordeão dá som porque as teclas trabalham com o ar. O cravo tem uns saltitantes que beliscam as cordas e por isso nos dá o som, um som muito bonito!
O orgão, também chamado de "Rei dos Instrumentos", também nos foi mostrado e explicado que dá som muito grave devido ao ar.
Gostamos muito da visita e recomendamos!!!
"

Este texto foi retirado da edição n.º 7, de Abril de 2004, da revista «Girassol», publicação trimestral dos alunos do «Jardim Infantil Nossa Senhora da Conceição», em Beja, da responsabilidade da turma do 4º ano.

Esta escola foi uma das 14 que visitaram o Conservatório Regional do Baixo Alentejo por ocasião da «Semana das Teclas» que decorreu entre entre 1 e 5 de Março, com actividades na Igreja do Seminário de Beja, na Sé de Beja e, evidentemente, nas instalações do Conservatório. As actividades repartiram-se por:

- exposição «Os Instrumentos Musicais de Teclas»;
- Concerto de Professores;
- Audições diárias de Alunos;
- Actividades com as Escolas de 1º Ciclo do Ensino Básico de Beja

Esta iniciativa contou com uma adesão de mais de 300 visitantes, dos quais, mais de 80%, crianças das escolas, alunos do Conservatório e seus pais. Um sucesso? Bom , foi de facto, gratificante, quanto amis não fora pelo texto que acima reproduzi, mas lamento, com tristeza, que nem um orgão de comunicação regional publicitasse o evento ( a verdade é que os bejenses não se aperceberam da iniciativa) e que a Agenda Cultural que a anunciou tenha chegado aos munícipes quase 15 dias depois!

Mas às crianças, a essas, não passou despercebido! E é por elas que mais devemos fazer para que possamos ser outros, amanhã! Quem sabe?

Íntima Fracção de parabéns

20 anos! É obra! Parabéns ao Francisco Amaral pelo seu Íntima Fracção.

abril 07, 2004

«Debaixo do Céu»

É onde estaremos no próximo dia 15 de Abril a convite do Arte Pública.

Estreia na Casa da Cultura de Beja, pelas 21,30 horas, com autoria e encenação de Gisela Cañamero.
Aconselhamos visita ao sítio do Arte Pública para ver ficha técnica, donde retiramos o texto que passamos a reproduzir:

"DEBAIXO DO CÉU é um espectáculo para todos, indicado para a família se deslocar em conjunto ao teatro.

Inspirado pelo universo dos contos orientais e tendo como referência a filosofia do Tao, DEBAIXO DO CÉU apresenta-se como um espectáculo de teatro musical que é também uma viagem iniciática para crianças e jovens.

Este espectáculo conta a história de Angelina e António - sujeitos de duas realidades muito diferentes que se hão-de encontrar como António e... António. Dois jovens adolescentes que se cruzam com um velho sábio que “sabe tudo o que se encontra debaixo do céu”.

Iniciam assim uma viagem pelo maravilhoso - seja ele fantástico ou terrífico - onde é possível realizar o sonho, iludir a força dos ignorantes e poderosos, descodificar mistérios, resolver situações problemáticas numa aventura que vai fortalecendo o sentimento de irmandade entre os dois jovens, atravessada pela descoberta de conceitos e reflexões que irão alicerçar o início de uma filosofia de vida, de auto-conhecimento e de inter-relacionamento."

A não perder, evidentemente, havendo espectáculos durante a tarde para as crianças podendo fazer o "dois", "três", "quatro" ou os que forem em "UM"!

Ainda o Pax Julia

No último Diário do Alentejo, Gisela Cañamero, em jeito de crónica, fala de teatro, evidencia o Arte Pública, ou não fosse a sua directora artística, dedicando ainda umas linhas ao Pax Julia e ao recém nomeado director artístico, José Filipe Murteira. Atente-se:

"Conheço, na pessoa do director artístico agora nomeado, a sensibilidade para ouvir os criadores, o esforço de auto-formação nesta área de intervenção, a capacidade reflexiva e intelectual para delinear filosofias programáticas e estratégias de execução.
Por Beja, e pelos cidadãos que a habitam - mas também pelo país que não queremos ver mais adiado - desejo-lhe, com sincero optimismo, a inspiração e a energia necessárias à tarefa.
Por ela - a árdua e cheia de responsabilidades terefa da Programação - por ele - director artístico - e também por todos nós - os beneficiários de um Teatro que queremos dinâmico e contemporâneo, impõe-se a pergunta:
- qual o modelo de gestão previsto para o Teatro Pax Julia?
"

As palavras da directora artística do Arte Pública compreendem-se, aceitam-se e ajustam-se, mas antes da programação, antes de uma direcção artística, antes até de um modelo de gestão (que muito bem questiona), coloca-se inevitavelmente a antecâmara, o preâmbulo, o "totem", a questão prima de qualquer projecto - o «para quem» e «para quê»! Depois, muito depois, o como - a chamada gestão e programação.

E a reflexão sobre o objecto de um projecto não pode colocar-se nas mãos de uma só pessoa (é desumano), nem de meia-dúzia e muito menos de um "escol"! Há que criar um grupo de reflexão onde possa contribuir a chamada sociedade civil ou, se preferirem, aqueles que podem, alheios a interesses particulares e pessoais, ajudar os decisores a equacionar as hipóteses de solução.

Ainda resta, pelos vistos só para mim, e sem a mínima intenção de menosprezar José Filipe Murteira, a incapacidade de, perante o modelo apresentado, um funcionário da Câmara conseguir erguer a sua voz junto da respectiva vereação da cultura, que no caso de Beja é acumulada pelo próprio Presidente, para negociar a favor do Pax Julia um modelo de gestão ou tão-só o orçamento anual!

Não é a pessoa de José Filipe Murteira que para mim está ou esteve em causa! Antes o que sobre os seus ombros colocaram, sem rebuço nem tibieza, impedindo-o, mais uma vez, de iniciar com a dignidade que lhe assiste, um projecto cultutral de relevância inequívoca que, tal como Gisela, não pode ser mais adiado!

abril 06, 2004

«O Fulgor é Móvel»

«A hiperficção é hoje um dos meus mais intensos labores, mas os textos para música litúrgica, a homilética, a investigação na área da cultura ocupam boa parte dos meus dias. O meu maior prazer vem daquilo que partilho com quem se preocupa com as coisas deste mundo e do outro que não vemos. Não perder o anel, esse é o desígnio. O resto é literatura.»

diz José Augusto Mourão no seu sítio cibernético de apresentação.

Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa lança, amanhã, mais um livro, «O Fulgor é Móvel», dedicado a Maria Gabriela Llansol, no Auditório do Instituto Camões, na Rua Rodrigues Sampaio, 113, juntamente com Annabela Rita que lança «Breves & Longas no País das Maravilhas», ambos editados pela Roma Editora e apresentados por Eduardo Lourenço e Casimiro de Brito.

José Augusto Mourão é uma das minhas refeências no que diz respeito à semiótica e teoria da comunicação, estando aqui e aqui disponíveis alguns dos textos que já editou.

A quem interessar conhecer melhor José Augusto Mourão deixo esta entrevista conduzida pelo Triplov.

«É Preciso Parar para Pensar»

Neste último "Caderno Municipal» de Beja, de Março de 2004, na última página e com o título em epígrafe a encimar uma fotografia da Praça da República, escreve o Sr. Presidente da Câmara, José Carreira Marques:

"Épreciso parar para pensar". É uma frase recente lida num semanário regional, a propósito de uma obra da Bejapolis que a autora não gosta.
Há pessoas assim: quando se decide é preciso parar; se não se decide, já devia estar feito!
Há pessoas que nunca aceitarão o rigor dos prazos nem o orçamento que não estica. E que se presumem tão judiciosas que nem lhes passa pela cabeça que arquictetos de longo e brilhante currículo não lhes tenha ocorrido rectificar um projecto que um imprevisto complicou.
E que o executivo municipal não tenha acompanhado essa angústia, (para certas pessoas o executivo é acéfalo).
Logo, é de bom tom erguer sabedoria e, sem solução, propor: "é preciso parar para pensar.
Valham-nos todos os santos, com gente assim talvez tivéssemos Polis daqui a 10 anos e logo se via quem haveria de pagar
".

Curioso, numa publicação da Câmara, paga pelo erário público, o Sr. Presidente começa por responder a uma senhora (?), pelo que diz «autora não gosta» e depois aí vai a direito para todos, indiscriminadamente: «Há pessoas assim (...)», «(...) que se presumem tão judiciosas que nem lhes passa pela cabeça (...)», «(...) para certas pessoas o executivo é acéfalo», enfim dispara sem sabermos contra quem (pelos vistos não é só contra uma senhora, dela parte para disparar indiscriminadamente).

Ficamos sem saber quem será a referida senhora, em que jornal regional escreveu, quem são todas as outras «pessoas assim»..., tudo isto se passa numa publicação publicitária municipal que, por não ser um orgão de comunicação social, não está obrigada por lei ao direito de resposta.

O Sr. Presidente pretende dizer que primeiro faz-se e depois pensa-se, será, à boa maneira de Salazar, cuja principal propaganda era o de mostrar "obra" feita?

Bom, pela fotografia publicada da actual Praça da República vê-se que a Câmara obrou, e de que maneira! Aquilo é obra feita!

abril 05, 2004

A Paixão

Nesta semana da Paixão, apesar do filme e suas recensões, não sinto culpados.
Nem Pilatos nem os que presenciarem o espectáculo da confirmação da sentença.
Só me ocorre um Homem, que por nós se fez pecador, por Amor, deu a vida por todos, pelos que sentenciaram, peloos que confirmaram, peloos que aplaudiram, pelos que nem souberam e pelos que mais tarde vieram a nascer.

Quercos - Comunicado de Imprensa 1 de Abril

40 mentiras sobre Ambiente que gostávamos fossem verdades

Desenvolvimento sustentável e participação dos cidadãos

1.. O desenvolvimento sustentável tornou-se numa preocupação transversal a todos os Ministérios e amplamente integrada nas políticas sectoriais.

2.. O desenvolvimento sustentável é hoje uma matéria transversal a todo o percurso escolar, desde o 1º ciclo até à universidade.

3.. Finalmente foi divulgada a estratégia que será seguida para preparar o Plano de Implementação da Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável, a data para a sua finalização e a forma como será organizada a participação da sociedade civil.

4.. A eficiência energética e do uso da água tornaram-se objectivos nacionais, estando a ser iniciadas campanhas de sensibilização e incentivo junto dos cidadãos e das entidades privadas e públicas para estas temáticas.

5.. Os Estudos de Impacte Ambiental podem, finalmente, ser considerados credíveis e um excelente instrumento para a tomada de decisão.

6.. As audiências públicas no âmbito dos Estudos de Impacte Ambiental tornaram-se de novo obrigatórias.

7.. Os pedidos de informação aos organismos estatais são respondidos no prazo máximo de 10 dias e deixaram de existir mecanismos de obstrução no acesso à informação por parte dos cidadãos.

8.. Instrumentos fiscais estão na prioridade do Governo para promover um desenvolvimento mais sustentável.


Ruído, ordenamento do território e conservação da natureza

9.. Autarquias elegem cumprimento de todos os requisitos do Regulamento Geral do Ruído como prioridade a bem da saúde pública dos portugueses.

10.. No período nocturno entre a meia-noite e as seis da manhã não haverá quaisquer movimentos de aviões nos aeroportos, excepto verdadeiras situações de utilidade pública.

11.. Nova geração de Planos Directores Municipais irá diminuir especulação imobiliária.

12.. Os municípios mais populosos só autorizam nova construção se for garantida a recuperação e reentrada no mercado de prédios devolutos pelos construtores.

13.. Revisão da Reserva Ecológica Nacional e da Reserva Agrícola Nacional vai ser amplamente discutida desde as primeiras propostas-base.

14.. Depois de sempre se mostrar aberto a discutir a proposta das organização não governamentais de ambiente, para ir ganhando tempo, o Governo decidiu-se finalmente pela gestão faseada do empreendimento de Alqueva.

15.. Barragem do Sabor não vai ser construída dada a destruição de habitats relevantes que causaria.

16.. A Rede Natura 2000 vai finalmente ter o seu plano sectorial concretizado em 2004.

17.. Todas as Áreas Protegidas terão Plano de Ordenamento dentro de seis meses.

18.. O Instituto de Conservação da Natureza viu o seu orçamento
substancialmente reforçado permitindo assim dar cumprimento a muitas das competências da responsabilidade deste serviço.
19.. Investimentos dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira / Programa Finisterra foram todos concretizados com êxito e reduziram degradação do litoral.

20.. Portugal vê finalmente posto em acção um Plano Nacional para o Desenvolvimento Sustentável da Floresta

21.. A polícia florestal vai ter o seu quadro de pessoal significativamente reforçado.

22.. O consumo de químicos na agricultura começou a diminuir devido à ampla introdução das medidas agro-ambientais em Portugal e à adesão à
agricultura biológica por parte de muitos agricultores.

Recursos hídricos, qualidade da água, saneamento básico

23.. O Governo assegura que no final do III Quadro Comunitário de Apoio em 2006, toda a população terá abastecimento público com qualidade, bem como drenagem e saneamento.

24.. Todas as entidades distribuidoras cumprem as análises obrigatórias e enviam-nas a tempo para o relatório anual sobre qualidade da água para consumo humano.
2
5.. Plano Nacional da Água e Planos de Bacia Hidrográfica estão a ser executados.

26.. Transposição da Directiva-Quadro da Água é uma realidade e nova Lei da Água resolve finalmente os eternos problemas de articulação entre entidades que gerem uma mesma bacia hidrográfica.

27.. O reforço da Inspecção Geral do Ambiente e a celeridade dos tribunais está a permitir que seja cada vez mais difícil poluir sem se ser punido.


Alterações climáticas e qualidade do ar

28.. Governo compromete-se a rever o Imposto Automóvel este ano e a implementar uma taxa de carbono para todos os combustíveis.

29.. Portugal evita excedências aos limiares de informação e de alerta de ozono em 2004.

30.. Graças aos Planos e Programas que estão em vigor, Lisboa e Porto deixaram de ser das cidades mais poluídas da Europa em termos de partículas.

31.. Portugal vai cumprir meta de 39% para a electricidade de origem renovável em 2010

32.. Governo assegura que Portugal vai cumprir integralmente os objectivos do Protocolo de Quioto em 2010.


Resíduos

33.. As políticas de reutilização, particularmente ao nível das embalagens, são amplamente aplicadas e levaram já a uma redução dos resíduos produzidos anualmente.

34.. Incineradora da ERSUC não vai avançar para ajudar na garantia que as metas de reciclagem estipuladas pela União Europeia serão cumpridas.

35.. Finalmente, cada cidadão paga consoante os resíduos que produz, pelo que quem participa na recolha selectiva vê recompensado o seu esforço na factura mensal.

36.. Metas de reciclagem de resíduos de embalagem vão ser atingidas em 2005.

37.. Já não são necessários centros de tratamento de resíduos industriais perigosos porque as quantidades produzidas são negligenciáveis.


Organismos geneticamente modificados

38.. A entrada ilegal de cereais transgénicos pelas alfândegas portuárias vai finalmente começar a ser fiscalizada.

39.. Os Ministérios da Agricultura e do Ambiente já não votam os transgénicos ora a favor, ora contra, consoante o representante que vai às votações de Bruxelas.

40.. O Plano Nacional para o Desenvolvimento da Agricultura Biológica vai ter discussão pública para evitar manipulações de gabinete por interesses especiais.

A Direcção Nacional da Quercus - Associação Nacional de Conservação da Natureza

Lisboa, 31 de Março de 2004


Quaisquer esclarecimentos sobre as verdades efectivas deste comunicado podem ser prestados por Hélder Spínola, Presidente da Quercus, telemóvel 93-7788472 ou 96-4344202.

Conceição Lopes
Secretariado da Direcção Nacional
Quercus-Associação Nacional da Conservação da Natureza
Apartado 4333 - 1503-003 Lisboa
Tel.: 21.7788474; Fax.: 21.7787749; Tm.: 93.7788474
www.quercus.pt ; quercus@quercus.pt

abril 03, 2004

O Praça da República tem nova casa

O Nikonman ousou mudar de instalações, transferindo-se para http://pracadarepublica.weblog.com.pt/, podendo ver aqui.
É um acto de alguma coragem, abdicar dos seus links habituais, arriscar a perder, inicialmente, algumas visitas, mas com a certeza de estar a ser servido por uma cara que conhecemos, o Paulo Querido, e que, desinteressadamente, tem prestado um serviço inexcedível aos blogues nacionais.
Bem vindo Praça da República.

abril 02, 2004

Francisco José Viegas, Vital Moreira - voto branco versus abstenção

Francisco José Viegas, na sua crónica semanal no JN (ver), a propósito do "Ensaio sobre a Lucidez" afirma a dado passo:

«A abstenção é uma arma mais poderosa, infinitamente mais poderosa, do que o "voto em branco": ela significa o desinteresse absoluto.»

ao que Vital Moreira responde, no Causa Nossa, extraindo o seguinte:

"Quem se abstém não vota, abdica de intervir, renuncia ao seu direito de voto, aliena-se dos mecanismos democráticos. Mas da abstenção não é possível retirar nenhum sentido geral nem unívoco, pois tanto pode significar uma absoluta rejeição dos mecanismos democráticos (um monárquico que se recusa a votar na eleição do presidente da República), como o simples desinteresse (“a minha politica é o trabalho”), como uma atitude de inutilidade (julgar antecipadamente decidido o resultado eleitoral), como o simples impedimento ocasional."

Pelo que disse aqui, aqui e aqui, é para mim claro que a abstenção significa o desinteresse, sim, mas particularmente a incapacidade das candidaturas em captar o desejo de voto.

É verdade que esse desinteresse «não tem um sentido geral nem unívoco», como aponta Vital Moreira, mas tem uma causa única - a incapacidade de mobilização das candidaturas, seja pelo seu conteúdo programático, por rejeição dos mecanismos democráticos, seja por alheamento ou comodismo de uma grande parte do colégio eleitoral.

Assim sendo, permanecem sem resposta três questões, a meu ver, importantes para a construção da democracia:

1 - Porque insistem os partidos políticos no monopólio do processo de candidatura em eleições legislativas?

2 - Porque é que os partidos políticos insistem na não obrigatoriedade dos seus candidatos serem residentes (residência fixa, real e comprovável) nos círculos a que se propõem?

3 - Porque é que os candidatos não eleitos pelos partidos ocupam os lugares para os quais ninguém elegeu ninguém, premiando-se, desta forma, os que não foram capazes de mobilizar os eleitores?

A manter-se este processo de representatividade, escamuteando a percentagem da abstenção, nunca os instalados, no caso os partidos políticos e sua clientela, sentirão necessidade de se reverem a si próprios no sentido de procurarem caminhos mais directos, mais eficazes e mais participativos do exercício da cidadania e da sua real e verdadeira representatividade.

Mesmo regressando ao "Ensaio sobre a Lucidez", apesar de estar de acordo com a visão pessimista e anacrónica da reacção ao voto em branco de que fala Francisco José Viegas, sou sensível ao que o Paulo Gorjão quando, aqui, afirma, realçando que o que ressalta, mais que o voto em branco e a ficcionada reacção, é um justo apelo a reflectirmos sobre a democratização dos "mecanismos democráticos" de modo a que a democracia não seja uma inevitabilidade do mal menor, mas sim um processo de manifestação de cidadania o mais abrangente e participada possível.

Preciosa oportunidade

No passado fim-de-semana Peter Roebke esteve em Lisboa a convite da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) para oriemtar um seminário sobre "Didáctica dos Instrumentos" a professores das nossas escolas de ensino vocacional, vulgo Conservatórios.

De parabéns está a ESML por convidar um dos mais conceituados personagens mundiais nesta matéria, professor catedrático na "Universität für Musik und darstellende Kunst Wien", isto é, tentando traduzir, Universidade de Música e Artes Performativas de Viena. Estes seminários em anos anteriores vinham sendo levados a cabo por António Mário Meneres Barbosa e esta alteração não é passível de ser comparada. Este género de convites trazem sempre valor acrescentado ao nosso país e, se for necessário recorrer a estrangeiros, venham eles, para colmatar faltas de competência em sectores particulares, como é o caso.

Dos participantes que contactei não encontrei nenhum que não desse por muito bem empregue o tempo ganho neste seminário de 16 horas em dois dias. Concentrado, mas muito proveitoso. Não é por acaso que Peter Roebke é um dos mais requisitados pedadgogos pelos cursos superiores de música das Universidades europeias e norte-americanas.

Vem esta apresentação a propósito da oportunidade que ocasionalmente tive de conviver breves horas com tão despretensioso mestre e constatar, sem ele se aperceber, do desiderato educacional que nos separa e afasta ainda desta nossa Europa!
Com efeito, abordando a realidade do ensino da música e das artes performativas, em geral, na Austria, Peter Roebke disse que há 220.000 alunos naquele país de cerca de 8 milhões de habitantes, sendo que apenas (nas suas palavras) 1% chega a profissional. Ora, em Portugal temos cerca de 15.000 alunos e menos de metade de 1% chega a profissional, em mais de 10.000.000 habitantes!

Há muitas deduções a fazer em torno destes dados meramente estatísticos, desde logo as condições (lá vêm elas) sóciais, económicas dos respectivos países e as financeiras das famílias. No entanto, ouso algumas reflexões:

1 - Um dos erros do nosso sistema de ensino das artes performativas (música, dança, teatro, por exemplo) é que as nossas escolas vocacionais, por influência das determinações do Ministério da Educação, têm uma missão desadequada ao contexto em que se inserem. Com efeito, estas escolas orientam-se, única e exclusivamente, pela superior missão de querer preparar profissionais desde a mais tenra idade (lembramos que há instituições que recebem, e bem, alunos a partir dos 3 anos). Ora esta postura pedagógica inviabiliza à partida que um qualquer jovem que não queira ser um profissional possa fruir de conhecimentos e sensibilização adequadas para poder ser um futuro cliente desses espectáculos, sentindo-se, na maior parte das vezes, marginalizado por não obter resultados equivalentes à "imensa" minoria que por vocação seguirão a via profissionalizante.

2 - Por outro lado, o sistema que se iniciou este ano lectivo (de forma gratuita) chamado de ensino articulado, entre as escolas básicas regulares e as vocacionais de artes, que sofre ainda de fortes resistências e boicotes à sua prossecução, tem mais de 20 anos de sucesso na Áustria e em grande parte dos países da Europa, por exemplo, Alemanha, Hungria, Reública Checa, Polónia, Eslovénia, Suíça, França...

3 - A inexistência de escolas verdadeiramente profissionalizantes às quais apenas acedam os alunos do ensino obrigatório que demonstram aptidão e interesse inequívoco para a profissionalização, obrigam a que a missão das actuais escolas vocacionais seja demasiadamente elástic, com o inconciliável objectivo de, por um lado, conseguir não desmotivar os poucos ousam não desistir após o 6/7º ano e incentivar as exigências necessárias aos que podem ir mais além.

Sem me deter em mais pontos posíveis de contacto entre a nossa realidade do ensino de música e artes performativas e o austríaco, sempre retorno à minha ideia de que temos perdido muito tempo (a mudança entre os antigos Conservatórios e as Escolas Superiores ainda nem sequer produziu frutos notórios e seguros) e a de que muito há a fazer no domínio dos desenvolvimentos curriculares do "trivium" e do "quadrivium".

E, por favor, senhores mandantes, à falta de um modelo educativo consensual, por favor, cuide-se mas é de ensinar, de educar, como sempre se fez, mesmo sem o modelo "óptimo"!

abril 01, 2004

Do diálogo com Vital Moreira sobre a Abstenção

Respondendo ao que aqui disse sobre a desclassificação da abstenção, Vital Morerira, no Causa Nossa, rebate ponto aponto o que afirmei, nomeadamente, quando referi que neste seu texto se notava a tendência de considerar irrelevante a abstenção na constituição da representação democrática.
O Professor considera infundada a minha crítica pois tem escrito muito sobre o assunto (o que é verdade), mas não deixa de preferir dar mais ênfase aos efeitos hipotéticos do voto em branco, ao manter que a abstençaõ é um acto de " (...) hostilidade de menor intensidade e de menor impacto".
Ora, é precisamente na valorização de "menor impacto" que mantenho a minha discordância. É que o voto em branco, em última análise, revela que se está de acordo com o sistema em vigor, mas não se identifica com nenhum dos candidatos, enquanto que a abstenção releva uma de duas posições - ou desinteresse no cumprimento de um dever de cidadania ou, para além de nenhum dos candidatos seduzir, não se revê neste sistema representativo!
É esta segunda hipótese que a nossa democracia tem de equacionar e resolver! É que 30% de abstencionistas não se podem, sumariamente, qualificar de irresponsáveis. Defendi que a melhor forma de combater esse manifesto (que não voto) é abrir mais espaço de paticipação aos cidadãos e, por outro lado, responsabilizar os partidos candidatos de duas formas: permitir candidaturas extra-partidárias e que a abstenção premeie candidatos, impedindo-os de ocupar assentos que, por via da abstenção, não lhes foram plebiscitados nem conferidos, deixando-os vagos tal qual o resultado do processo eleitoral.
Vital Moreira contrapõe que já existe a possibilidade de candidaturas extra-partidárias e que por esse facto a abstenção não é menor (o que não confirmo, em geral as eleições autárquicas são mais participadas que as legislativas e, sem margem para dúvida, que as europeias) e que, passo a citar, " a diminuição da dimensão das assembleias proporcionalmente à abstenção representaria uma espécie de punição das instituições representativas, em prejuízo dos eleitores que não se abstiveram e que não têm culpa da abstenção dos outros. A abstenção não deve ser premiada, muito menos com a diminuição da qualidade da democracia representativa."

Aqui está mais uma declaração de menoridade dos abstencionistas, colocando-os à margem do processo representativo, cujo não voto premeia, exactamente, aqueles que a abstenção nunca quis premiar. Pelo facto de reduzir a quantidade de representantes não é linear que se reduza a qualidade da democracia representativa! Bem pelo contrário, a representação deve impor a verdade da representatividade plebiscitada, responsabilizando aqueles que não conseguiram (nem pretendem conseguir, na minha opinião) justificar a adesão dos abstencionistas!
A punição de que Vital Moreira fala, a das instituições representativas, não é verificável. A punição que advogo é a dos candidatos e candidaturas que nada disseram aos eleitores e que, ocupando os lugares para os quais ninguém foi eleito, continuarão sem nada fazer para os inserir no processo democrático representativo.

Não é a abstenção que deve ser premiada, Sr. Professor, nisso estou de acordo, são os candidatos que ninguém plebiscitou que não devem, como têm sido, premiados com assentos para os quais não foram investidos de soberania pelo colégio eleitoral. É uma questão de verdade representaiva, para mim, um passo em frente no desenvolvimento das possibilidades de participação de cidadania com correspodente aperfeiçoamento da democracia.

A Catarina disse-me que estava grande...

Lamentou-se, em sussurro delicado, que não cabia, que estava grande, que não era confortável!
Ora, um lamento da Catarina é para mim uma imposição!
Encolhi-o, emagreci-o lateralmente, ajustei as suas porporções e, após uma noite de árduo mas diligente cumprimento daquele chamamento, posso hoje dizer, aqui está Catarina,por este teu servo, adequado às dimensões que reclamaste!
O template destas Ideias Soltas estão já adequadas à dimensão do teu écran!