Foi um momento sem igual para a Mãe, o Pai, para a Avó e o Avô - a Manucha nascera - era a primeira filha e a primeira neta após um período de tentativas sem êxito que faziam pairar a desoladora sensação de infertilidade.
Mas a Manucha nasceu, esconjurando os fundos e mudos receios, repondo a normalidade, numa família que em famíla se pretendia constituir, formar prole que assugerasse a continuidade.
O parto não fora fácil, ainda em tempos que os radioisótipos não revelavam as nossas entranhas nem pré-anunciavam quem viria, obrigando a parteira a redobrados esforços para a salvar de um cordão umbilical que a sufocava cada vez mais à medida que fazia por se libertar do ventre que a engendrou. Tudo se compôs, afinal, embora o tom arroxeado da pele impusesse uns dias de oxigénio.
Ninguém sabia a extensão dos danos, se é que os havia, que aquele sufoco pudesse ter infligido, mas em boa verdade, a probabilidade era escassa, segundo o pediatra, que afirmou serem muito poucos os bébés que em idênticas circunstâncias não eram perfeitamente saudáveis quando, para mais, a Manucha, respondia positivamente a todos os estímulos neurológicos. Uma alegria para todos, pois está claro, que sofreram umas boas horas para saber se era ou não desta vez que se daria início à continuidade.
Ao cabo dois dias já a Manucha aduirira o róseo do recém-nascido e mamava com fulgor na mama que lhe estava destinada, era vê-la a engordar e a crescer.
Aos 6 meses os Pais demonstraram alguma preocupação pelo facto de a Manucha não se mexer normalmente. Aos 8 meses não se susteve sentada; ao ano não andou; aos dois anos não falou; a fralda nunca deixou; o olhar nunca se fixou. Os Pais foram ao pediatra aos primeiros sinais; correram os neurologistas que sabiam existir; lavaram a Manucha a reputados especialistas na Suíça, no Reino Unido, em França, na Alemanha e a única certeza que obtiveram foi o diagnóstico de danos neurológicos a nível cerebral impossíveis de quantificar ou localizar e de quase certa irreversão, que se preparassem para aquela vida que poucas dezenas de anos mais tarde a ciência se encarregou de designar de vegetativa.
Mas a Manucha ria, a Manucha chorava, a Manucha estava ora bem disposta ora mal-disposta conforme os dias, reagia à música e a família, os Pais e o irmão mais novo, que entretanto nascera, embora o seu estado se deteriorasse de dia para dia, viveram em família felizes com a Manucha que, apesar de diferente, ocupava o seu lugar e indispensável significância no seu seio.
A Manucha morreu perto de completar dezoito anos deixando um vazio que nunca nenhum de nós soube adaptar-se – dois anos mais tarde a família desmembra-se, partindo cada um para seu lado, perdidos, à procura, sem o saberem, de um significado, sem vislumbrar que tinham sido as próprias fundações que se tinham desmoronado - o elo que os unira e os ensinara a viver tinha desaparecido.
A Manucha não foi um Ser com uma vida vegetativa e a prova disso foi a falta que fez a todos que com ela aprenderam e a sorte que tiveram em ela morrer a seu tempo.
Sem comentários.... é algo que nos toca profundamente e nos faz repensar a nossa própria existência.
Afixado por: chantal em março 30, 2005 10:55 AM