Depois de ler tanto comentador e futurólogos lembrei-me (lembro-me muitas vezes, é certo) da "L'Ere du Vide" de Gilles Lipovetsky:
«Tocqueville dizia que os povos democráticos mostravam «um amor mais ardente e mais duradouro pela igualdade do que pela liberdade»: temos o direito de perguntar se o processo de personalização não modificou em profundidade esta prioridade. Sem dúvida, a exigência de igualdade continua a afirmar-se, mas há uma exigência mais significativa, mais imperativa ainda: é a da liberdade individual. O processo de personalização engendrou uma explosão de reivindicações de liberdade que se manifesta em todos os domínios, na vida sexual e familiar, (...) no vestuário, na dança, nas actividades corporais e artísticas , (...) na comunicação e no ensino, (...) na paixão pelos tempos livres e pela sua extensão, nas novas terapias que têm por fim a libertação do eu.
(...) Hoje toleram-se mais facilmente as desigualdades sociais do que os interditos relativos à esfera privada; consente-se mais ou menos no poder da tecnocracia, legitimam-se as elites do poder e do saber, mas recusa-se a regulamentação do desejo e dos costumes.»
Esta coisa da necessidade e desejo individuais de comunicar e interagir que se constata seja no excesso de comentadores diários, de tudo e sobre tudo, independentemente do meio de difusão, seja no incessante aumento da comunidade blogosférica, não nos poderá ajudar a encontrar mais uma resposta à eterna questão "o que é um blogue?" que o Luís Ene tanto e bem lhe tem dado?
Sou levado a inclinar-me para que mais não seja se não o meio de difusão que mais se adequou a esta explosão da necessidade de comunicar, interagir e incluir em comunidade! É que este processo de personalização pós-modernista não é, contrariamente ao que poderá parecer, um processo isolacionista, bem pelo contrário, ao colocar a liberdade individual como totem só a concebe em comunidade.
Caro amigo Carlos mas embora como diz a blogosfera não seja mais do que um meio de difusão, só por isso tem valido a pena, falando
óbviamente por mim, porque tenho feito novas amizades e sobretudo acabou por ser este o hobby
que me tem dado mais prazer cultivar. Com um abraço do Raul
Faço minhas as palavras do amigo Raul, mas ao pé de vocês considero-me um reles amador.
Quem dá o que tem, a mais não é obrigado, não é?
Boa malha, boa citação... (Não te esqueças, no entanto, que o Lipovetsky é um moralista católico quase furioso...)
Um abraço,
Francisco Nunes
Quanto a esta última parte, parece-me que temos tentado fazer qualquer "coisita".
Um abraço.
Para mim que, como bloguer, sou ainda uma criança, este "hobby" também já se transformou num hábito, mas nasceu como uma necessidade.
Acho que é natural (e muito saudável) que as pessoas exerçam, de alguma forma, o seu direito de livre expressão; e que assumam o seu direito a serem diferentes, o seu direito a "pensarem diferente".
Mas não foi por isso que decidi perder aqui este tempo a escrever. Foi para chamar a atenção para o facto de que, este fenómeno é perfeitamente natural (nem me parece ter nada de individualismo, embora admita que algumas pessoas o façam alimentando a secreta aspiração de se promoverem).
Mas então, é natural porquê?
Pelo simples e evidente facto de que, na nossa sociedade, não há verdadeiros lideres, entre os notáveis. Haver lideres há, isso é uma lei da vida (só que têm estado impedidos de aparecer)!
Este facto, de não existirem verdadeiros lideres, foi afirmado já há muito tempo por Freitas do Amaral, numa entrevista à televisão. No seu dizer, tratava-se de "falta de referências".
Até por isso, é natural que, qualquer pessoa que sinta, de maneira mais digna, os nossos problemas comuns (e são muitas essas pessoas), ache que tem direito à mesma (ou mais) atenção e "regalias" que os notáveis (que não valem nada).
É uma questão que não me preocupa, pelo contrário: acho óptimo! Até porque é perfeitamente natural! O que me preocupa é a visão distorcida, destas coisas e não só, que a propaganda "institucionalizada", inculca nas pessoas, que lhes dificulta o caminho, na procura de verdadeiras soluções.
Também me preocupa que as pessoas de mais valor sejam relegadas para estes círculos restritos, onde o impacto das suas opiniões é muito menor, porque os grandes circuitos de comunicação estão obstruídos por propaganda enganosa e são objecto de cerrada censura, todos os dias. Só passa o que convém à manutenção, no poleiro, do actual "lixo humano"!
Desculpem-me ter abusado, tanto, deste espaço. Saiu assim, ao correr da pena. É que estas coisas não são fáceis de expressar!
O "movimento" crescente da proliferação de blogues nada tem de errado ou maléfico! Quem me interpretou de forma forma peço desculpa por não ter sido suficientemente explícito.
O que se pretende dizer é que esta personalização que alude Lipovetsky é salutar na medida em que, por um lado, será muito mais difícil calar quem pretende comunicar e impedir o poder de ignorar o que se faz pensando e, por outro, o facto de querermos comunicar em comunidade, i.e., queremos comunicar, queremos ser ouvidos e queremos ser influenciados.
Ora esta "libertação" do eu encontrou neste meio de difusão , o blogue, o terreno mais propício para a sua propagação, permitindo uma liberdade de comunicação sem paralelo na história.
E quando Biranta diz: «Até por isso, é natural que, qualquer pessoa que sinta, de maneira mais digna, os nossos problemas comuns (e são muitas essas pessoas), ache que tem direito à mesma (ou mais) atenção e "regalias" que os notáveis (que não valem nada).» eu estou absolutamente de acordo, mas não esqueço que, sendo a blogosfera uma comunidade de comunicadores sujeito à normal sociabilidade e ais mais díspares comportamentos, também por aqui começamos a assistir a sub-comunidades que pretendem ter mais voz que as demais, sustentando-se entre eles como "elites" blogosféricas.
Muito obrigado atodos pelos comentários.