dezembro 01, 2004

Leituras

Depois de ler tanto comentador e futurólogos lembrei-me (lembro-me muitas vezes, é certo) da "L'Ere du Vide" de Gilles Lipovetsky:

«Tocqueville dizia que os povos democráticos mostravam «um amor mais ardente e mais duradouro pela igualdade do que pela liberdade»: temos o direito de perguntar se o processo de personalização não modificou em profundidade esta prioridade. Sem dúvida, a exigência de igualdade continua a afirmar-se, mas há uma exigência mais significativa, mais imperativa ainda: é a da liberdade individual. O processo de personalização engendrou uma explosão de reivindicações de liberdade que se manifesta em todos os domínios, na vida sexual e familiar, (...) no vestuário, na dança, nas actividades corporais e artísticas , (...) na comunicação e no ensino, (...) na paixão pelos tempos livres e pela sua extensão, nas novas terapias que têm por fim a libertação do eu.
(...) Hoje toleram-se mais facilmente as desigualdades sociais do que os interditos relativos à esfera privada; consente-se mais ou menos no poder da tecnocracia, legitimam-se as elites do poder e do saber, mas recusa-se a regulamentação do desejo e dos costumes.»

Esta coisa da necessidade e desejo individuais de comunicar e interagir que se constata seja no excesso de comentadores diários, de tudo e sobre tudo, independentemente do meio de difusão, seja no incessante aumento da comunidade blogosférica, não nos poderá ajudar a encontrar mais uma resposta à eterna questão "o que é um blogue?" que o Luís Ene tanto e bem lhe tem dado?
Sou levado a inclinar-me para que mais não seja se não o meio de difusão que mais se adequou a esta explosão da necessidade de comunicar, interagir e incluir em comunidade! É que este processo de personalização pós-modernista não é, contrariamente ao que poderá parecer, um processo isolacionista, bem pelo contrário, ao colocar a liberdade individual como totem só a concebe em comunidade.

Publicado em dezembro 1, 2004 09:29 PM
Comentários

Caro amigo Carlos mas embora como diz a blogosfera não seja mais do que um meio de difusão, só por isso tem valido a pena, falando
óbviamente por mim, porque tenho feito novas amizades e sobretudo acabou por ser este o hobby
que me tem dado mais prazer cultivar. Com um abraço do Raul

Afixado por: congeminações em dezembro 1, 2004 10:08 PM

Faço minhas as palavras do amigo Raul, mas ao pé de vocês considero-me um reles amador.
Quem dá o que tem, a mais não é obrigado, não é?

Afixado por: canzoada em dezembro 1, 2004 11:13 PM

Boa malha, boa citação... (Não te esqueças, no entanto, que o Lipovetsky é um moralista católico quase furioso...)

Um abraço,
Francisco Nunes

Afixado por: Planície Heróica em dezembro 1, 2004 11:21 PM

Quanto a esta última parte, parece-me que temos tentado fazer qualquer "coisita".
Um abraço.

Afixado por: Albardeiro em dezembro 2, 2004 12:14 AM

Para mim que, como bloguer, sou ainda uma criança, este "hobby" também já se transformou num hábito, mas nasceu como uma necessidade.
Acho que é natural (e muito saudável) que as pessoas exerçam, de alguma forma, o seu direito de livre expressão; e que assumam o seu direito a serem diferentes, o seu direito a "pensarem diferente".
Mas não foi por isso que decidi perder aqui este tempo a escrever. Foi para chamar a atenção para o facto de que, este fenómeno é perfeitamente natural (nem me parece ter nada de individualismo, embora admita que algumas pessoas o façam alimentando a secreta aspiração de se promoverem).
Mas então, é natural porquê?
Pelo simples e evidente facto de que, na nossa sociedade, não há verdadeiros lideres, entre os notáveis. Haver lideres há, isso é uma lei da vida (só que têm estado impedidos de aparecer)!
Este facto, de não existirem verdadeiros lideres, foi afirmado já há muito tempo por Freitas do Amaral, numa entrevista à televisão. No seu dizer, tratava-se de "falta de referências".
Até por isso, é natural que, qualquer pessoa que sinta, de maneira mais digna, os nossos problemas comuns (e são muitas essas pessoas), ache que tem direito à mesma (ou mais) atenção e "regalias" que os notáveis (que não valem nada).
É uma questão que não me preocupa, pelo contrário: acho óptimo! Até porque é perfeitamente natural! O que me preocupa é a visão distorcida, destas coisas e não só, que a propaganda "institucionalizada", inculca nas pessoas, que lhes dificulta o caminho, na procura de verdadeiras soluções.
Também me preocupa que as pessoas de mais valor sejam relegadas para estes círculos restritos, onde o impacto das suas opiniões é muito menor, porque os grandes circuitos de comunicação estão obstruídos por propaganda enganosa e são objecto de cerrada censura, todos os dias. Só passa o que convém à manutenção, no poleiro, do actual "lixo humano"!
Desculpem-me ter abusado, tanto, deste espaço. Saiu assim, ao correr da pena. É que estas coisas não são fáceis de expressar!

Afixado por: Biranta em dezembro 2, 2004 12:33 PM

O "movimento" crescente da proliferação de blogues nada tem de errado ou maléfico! Quem me interpretou de forma forma peço desculpa por não ter sido suficientemente explícito.
O que se pretende dizer é que esta personalização que alude Lipovetsky é salutar na medida em que, por um lado, será muito mais difícil calar quem pretende comunicar e impedir o poder de ignorar o que se faz pensando e, por outro, o facto de querermos comunicar em comunidade, i.e., queremos comunicar, queremos ser ouvidos e queremos ser influenciados.
Ora esta "libertação" do eu encontrou neste meio de difusão , o blogue, o terreno mais propício para a sua propagação, permitindo uma liberdade de comunicação sem paralelo na história.
E quando Biranta diz: «Até por isso, é natural que, qualquer pessoa que sinta, de maneira mais digna, os nossos problemas comuns (e são muitas essas pessoas), ache que tem direito à mesma (ou mais) atenção e "regalias" que os notáveis (que não valem nada).» eu estou absolutamente de acordo, mas não esqueço que, sendo a blogosfera uma comunidade de comunicadores sujeito à normal sociabilidade e ais mais díspares comportamentos, também por aqui começamos a assistir a sub-comunidades que pretendem ter mais voz que as demais, sustentando-se entre eles como "elites" blogosféricas.
Muito obrigado atodos pelos comentários.

Afixado por: carlos a.a. em dezembro 2, 2004 12:55 PM