Aproveitando a hora do almoço lá fui à Pousada de S. Francisco ver a exposição colectiva de fotografia "7 x 7 Fotografias" sob o tema Alentejo. 7 fotografias de 7 fotógrafos: Carlos Cascalheira, Diniz Cortes, Helena Milheiro, João Espinho, José Galhoz, Rita Moisão e Zé Espinho.
Exactamente como quase todos os blogueiros tenho a mania que sei um pouco de tudo e, em e por consequência, apesar de não pescar bóia de fotografia, também vou debitar o que é que achei.
Trata-se de uma exposição que apesar de ser sobre o Alentejo, apesar de a totalidade dos artistas procurar mostrar o real, este revela-se inevitavelmente diferente. Diferente porque o "real" é produto da captação de um dos nossos orgãos ditos sensoriais e processado na particularidade em que cada qual se vai refazendo, não tanto geneticamente, mais vivencial, identitária, cultural e até mental se preferiram.
Daí que, apesar de ser do Alentejo, senti que a cada autor poderíamos etiquetar um sub-tema: "A Particularidade", por exemplo, para o Carlos Carvalhal, com fotografias muito especícas do que é quase só nosso - o girassol, a espiga, o burro e a carroça, a papoila vermelha; "A Busca do Singular" para Diniz Cortes; A Helena Milheiro poderia colar "Levantamento Etno-paisagístico" onde mostra pessoas, paisagens e momentos da vida rural em vias de desaparecimento; "O Pormenor" para João Espinho, sempre de "zoom" bem puxado para nos revelar todos os detalhes; para José Galhoz reservaria "O Instantâneo", fotografias sem movimento, paradas no tempo e no espaço como se o relógio se interrompesse no momento em que a película recebe a luz; "O dia-a-dia" para Rita Moisão, o quotidiano da lavoura em extinção; "Landscapes" para o Zé Espinho, a busca do melhor local e momento para registar.
Sem ordem de valoração retive meia-dúzia de trabalhos que me seduziram particularmente:
- de Helena Milheiro uma fotografia do nosso campo com uma cromática riquíssima desenvolvida a partir de apenas 2 cores base - o verde, o da relva e o da azinheira, e uma sequência de castanhos, do mais amarelado ao mais avermelhado, obtendo um resultado diria pictórico, assemelhando-se em muito aos trabalhos a óleo de Van Gogh;
- um dos retratos de uma velha de João Espinho, não o da mais marcada pelo tempo, mas daquela que apesar da proximidade do autor não conseguimos saber se a velha pensa em si, no que perdeu, no que tem para ganhar, ou..., arriscaria a dizer o retrato de uma velha que olha para si mesma;
- de José Galhoz o retrato de um cesteiro (penso eu) sentado, imóvel, parado no tempo e no espaço, parecendo pairar imóvel sobre "todo o tempo do mundo";
- um "landscape" de Zé Espinho de Beja à noite, tirada ali para os lados(?) de quem entra vindo de Serpa, com um colorido inusitado de rico e intenso quase parecendo arranjado digitalmente; como se trata de uma exposição de fotografia não creio que esta fotografia tivesse sido objecto de tratamento, mas o cromatismo é tão denso e exuberante que torna a fotografia singular.
Bom, e já que gosto de dizer coisas, aí vão duas das quais senti falta: não há designação alguma para o conjunto de 7 fotografias de cada autor, bem como não há legenda alguma apensa aos trabalhos sobre a sua designação particular, local, data e técnicas utilizadas.
Dei o tempo por muito bem empregue, recomendo vivamente uma passagem por lá e agradeço a quem tornou possível a ocorrência deste evento.
Vou printar esta tua opinião, para anexar ao livro de visitas.
Sobre a tua apreciação às obras expostas, nada a comentar.
Gostaria de te acompanhar numa segunda visita à exposição. Procuraria sentir o teu olhar. E assim dar forma ao registo de um sentido.
Quanto à velhota da foto que referes, não sendo tecnicamente melhor que a outra, é sem dúvidas muito mais intensa. E eu sei-o, porque sei o que senti.
Um abraço.