Francisco José Viegas, na sua crónica semanal no JN (ver), a propósito do "Ensaio sobre a Lucidez" afirma a dado passo:
«A abstenção é uma arma mais poderosa, infinitamente mais poderosa, do que o "voto em branco": ela significa o desinteresse absoluto.»
ao que Vital Moreira responde, no Causa Nossa, extraindo o seguinte:
"Quem se abstém não vota, abdica de intervir, renuncia ao seu direito de voto, aliena-se dos mecanismos democráticos. Mas da abstenção não é possível retirar nenhum sentido geral nem unívoco, pois tanto pode significar uma absoluta rejeição dos mecanismos democráticos (um monárquico que se recusa a votar na eleição do presidente da República), como o simples desinteresse (“a minha politica é o trabalho”), como uma atitude de inutilidade (julgar antecipadamente decidido o resultado eleitoral), como o simples impedimento ocasional."
Pelo que disse aqui, aqui e aqui, é para mim claro que a abstenção significa o desinteresse, sim, mas particularmente a incapacidade das candidaturas em captar o desejo de voto.
É verdade que esse desinteresse «não tem um sentido geral nem unívoco», como aponta Vital Moreira, mas tem uma causa única - a incapacidade de mobilização das candidaturas, seja pelo seu conteúdo programático, por rejeição dos mecanismos democráticos, seja por alheamento ou comodismo de uma grande parte do colégio eleitoral.
Assim sendo, permanecem sem resposta três questões, a meu ver, importantes para a construção da democracia:
1 - Porque insistem os partidos políticos no monopólio do processo de candidatura em eleições legislativas?
2 - Porque é que os partidos políticos insistem na não obrigatoriedade dos seus candidatos serem residentes (residência fixa, real e comprovável) nos círculos a que se propõem?
3 - Porque é que os candidatos não eleitos pelos partidos ocupam os lugares para os quais ninguém elegeu ninguém, premiando-se, desta forma, os que não foram capazes de mobilizar os eleitores?
A manter-se este processo de representatividade, escamuteando a percentagem da abstenção, nunca os instalados, no caso os partidos políticos e sua clientela, sentirão necessidade de se reverem a si próprios no sentido de procurarem caminhos mais directos, mais eficazes e mais participativos do exercício da cidadania e da sua real e verdadeira representatividade.
Mesmo regressando ao "Ensaio sobre a Lucidez", apesar de estar de acordo com a visão pessimista e anacrónica da reacção ao voto em branco de que fala Francisco José Viegas, sou sensível ao que o Paulo Gorjão quando, aqui, afirma, realçando que o que ressalta, mais que o voto em branco e a ficcionada reacção, é um justo apelo a reflectirmos sobre a democratização dos "mecanismos democráticos" de modo a que a democracia não seja uma inevitabilidade do mal menor, mas sim um processo de manifestação de cidadania o mais abrangente e participada possível.
Publicado em abril 2, 2004 05:37 PMhttp://inopinado.blogs.sapo.pt/
Ensaio sobre a Lucidez!!!
Ontem ao ouvir ao debate da TSF, perguntei-me enumeras vezes se estaria numa qualquer tertúlia imperialista de pessoas subitamente contagiadas por um vírus mutante que acumula em si a contradição, o politicamente correcto, a incapacidade mental, o desejo de ser o dono da razão.Como é que alguém no seu perfeito estado de saúde mental pode apelar ao voto em branco e ao mesmo tempo aceitar que o seu nome faça parte de uma lista para as eleições europeias? Será que perdeu a lucidez? Como faz referência BAR DO MOE Nº 133. Mais, na actual instabilidade das democracias provocada recentemente por actos bárbaros de grupos terroristas sem escrúpulos não deveríamos todos apelar ao voto para demonstrarmos que nos regimes democráticos temos todos o direito a exprimir a nossa opinião diferenciada em vez de apelarmos a uma uniformização do voto próprio de estados ditatoriais? Ou será que poderei pensar que um prémio Nobel, no século 21 defende as ditaduras opressoras fraquejando perante o medo de atentados em regimes democráticos? Sentimento partilhado em Portugal pelo seu PCP e pelo Bloco como transcreve Daniel Oliveira no seu blog, “E os aplausos disseram quase tudo do sentimento que dominava a sala: contra «os políticos», contra «esta democracia», contra «o sistema». Nenhuma esperança”. Mas as democracias não foram livremente eleitas pelo povo? Ou para estes senhores os verdadeiros valores da democracia só são aqueles que eles preconizam? E isto é democracia ou ditadura? Estou confuso!!! Mas como também diz Daniel Oliveira “Estava ali uma esquerda rancorosa e cansada, de todos os partidos. E verdade seja dita, Saramago representa-a como poucos”, resumindo estava ali uma esquerda que nunca conseguiu conviver em regimes democraticamente eleitos, que nunca consegui aceitar a vontade do povo quando esta é diferente da sua. Estava ali uma esquerda que não admite que dentro dela existam voz discordantes, estava ali a esquerda que temos. Tudo se resume a esta questão “o homem acha-se um portento literário e teme a conotação politica dada ao livro, em detrimento da elaboração artística – então porque raio anda este cavalheiro acompanhado de políticos e manda farpas partidárias aos molhos?” como se questiona em food-i-do. Mas o que me invade o espírito é simplesmente esta questão: Suponhamos que eu farto dos políticos (de todos) voto em branco, que é um direito que me assiste, e suponhamos que nessas eleições a esquerda vence, será que a leitura do meu voto em branco vai ser interpretada por esta como uma consequência do meu estado saturado em relação a toda a classe politica ou vai ser aproveitado para dizer que o meu sentido de voto foi um descontentamento para quem governa e para com a direita?
Que alguém me esclareça!
AJFerrão
Afixado por: AJFerrão em abril 2, 2004 09:24 PMPara defender ideias e ideiais é preciso constituir um partido. Doutro modo não se chega a lado algum. na sociedade em que vivemos é difícil intervir, sem ser através da varinha mágica que são os partidos. O problema é que estou farto de ver gajos bons chegarem aos governos e que logo me decepcionam. É do sistema, só pode ser.
Cc