No passado fim-de-semana Peter Roebke esteve em Lisboa a convite da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) para oriemtar um seminário sobre "Didáctica dos Instrumentos" a professores das nossas escolas de ensino vocacional, vulgo Conservatórios.
De parabéns está a ESML por convidar um dos mais conceituados personagens mundiais nesta matéria, professor catedrático na "Universität für Musik und darstellende Kunst Wien", isto é, tentando traduzir, Universidade de Música e Artes Performativas de Viena. Estes seminários em anos anteriores vinham sendo levados a cabo por António Mário Meneres Barbosa e esta alteração não é passível de ser comparada. Este género de convites trazem sempre valor acrescentado ao nosso país e, se for necessário recorrer a estrangeiros, venham eles, para colmatar faltas de competência em sectores particulares, como é o caso.
Dos participantes que contactei não encontrei nenhum que não desse por muito bem empregue o tempo ganho neste seminário de 16 horas em dois dias. Concentrado, mas muito proveitoso. Não é por acaso que Peter Roebke é um dos mais requisitados pedadgogos pelos cursos superiores de música das Universidades europeias e norte-americanas.
Vem esta apresentação a propósito da oportunidade que ocasionalmente tive de conviver breves horas com tão despretensioso mestre e constatar, sem ele se aperceber, do desiderato educacional que nos separa e afasta ainda desta nossa Europa!
Com efeito, abordando a realidade do ensino da música e das artes performativas, em geral, na Austria, Peter Roebke disse que há 220.000 alunos naquele país de cerca de 8 milhões de habitantes, sendo que apenas (nas suas palavras) 1% chega a profissional. Ora, em Portugal temos cerca de 15.000 alunos e menos de metade de 1% chega a profissional, em mais de 10.000.000 habitantes!
Há muitas deduções a fazer em torno destes dados meramente estatísticos, desde logo as condições (lá vêm elas) sóciais, económicas dos respectivos países e as financeiras das famílias. No entanto, ouso algumas reflexões:
1 - Um dos erros do nosso sistema de ensino das artes performativas (música, dança, teatro, por exemplo) é que as nossas escolas vocacionais, por influência das determinações do Ministério da Educação, têm uma missão desadequada ao contexto em que se inserem. Com efeito, estas escolas orientam-se, única e exclusivamente, pela superior missão de querer preparar profissionais desde a mais tenra idade (lembramos que há instituições que recebem, e bem, alunos a partir dos 3 anos). Ora esta postura pedagógica inviabiliza à partida que um qualquer jovem que não queira ser um profissional possa fruir de conhecimentos e sensibilização adequadas para poder ser um futuro cliente desses espectáculos, sentindo-se, na maior parte das vezes, marginalizado por não obter resultados equivalentes à "imensa" minoria que por vocação seguirão a via profissionalizante.
2 - Por outro lado, o sistema que se iniciou este ano lectivo (de forma gratuita) chamado de ensino articulado, entre as escolas básicas regulares e as vocacionais de artes, que sofre ainda de fortes resistências e boicotes à sua prossecução, tem mais de 20 anos de sucesso na Áustria e em grande parte dos países da Europa, por exemplo, Alemanha, Hungria, Reública Checa, Polónia, Eslovénia, Suíça, França...
3 - A inexistência de escolas verdadeiramente profissionalizantes às quais apenas acedam os alunos do ensino obrigatório que demonstram aptidão e interesse inequívoco para a profissionalização, obrigam a que a missão das actuais escolas vocacionais seja demasiadamente elástic, com o inconciliável objectivo de, por um lado, conseguir não desmotivar os poucos ousam não desistir após o 6/7º ano e incentivar as exigências necessárias aos que podem ir mais além.
Sem me deter em mais pontos posíveis de contacto entre a nossa realidade do ensino de música e artes performativas e o austríaco, sempre retorno à minha ideia de que temos perdido muito tempo (a mudança entre os antigos Conservatórios e as Escolas Superiores ainda nem sequer produziu frutos notórios e seguros) e a de que muito há a fazer no domínio dos desenvolvimentos curriculares do "trivium" e do "quadrivium".
E, por favor, senhores mandantes, à falta de um modelo educativo consensual, por favor, cuide-se mas é de ensinar, de educar, como sempre se fez, mesmo sem o modelo "óptimo"!
Publicado em abril 2, 2004 04:29 PM