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outubro 16, 2006
Marçal Grilo - o bom selvagem
Ao Domingo à noite a coisa ainda vai, mas à 2ª feira, dasss meu, não há pachorra. Nem para o Dr. Marçal Grilo nem para a Sra. Ministra!
Como é que estes senhores, com os quais até simpatizo, acham possível a autonomia das escolas enquanto não alterarem a sua forma de gestão? Como é que estes senhores, bem intencionados, repito, acreditam que a avaliação dos professores vai funcionar se irão ser avaliados pelos colegas que elegeram e irão eleger?
Estará tudo doido varrido ou será mesmo que ainda estarão toldados pelo “bom selvagem” de Rousseau?
Entre S. Tomás e Rousseau, o homem é intrinsecamente mau ou intrinsecamente bom, vai um mundo de acasos onde o bem e o mal, o bom e o mau, se mesclam em ininterruptas reacções aos mais diversos estímulos e, portanto, não há sistema que funcione se não houver condições objectivas para que ele seja implementado, controlado e avaliado.
Eu gostaria de ter ouvido que antes de qualquer genial reforma educativa haveria que implementar 4 condições essenciais para que, sejam elas quais foram, poderem ser aplicadas e avaliadas:
1 – os pais devem ser civilmente responsáveis pela educação dos seus filhos, devendo este dever estar no Código Civil formalmente inscrito no conceito de paternidade e com penas aplicáveis;
2 – acabar com os conselhos directivos eleitos (resquícios do PREC) e contratar, por concursos público, directores aos quais estejam atribuídos objectivos específicos e quantificáveis para a escola em causa tendo, para o efeito, autonomia para contratar quem bem entenderem para a direcção pedagógica que deverá fazer parte de um conselho composto por representantes eleitos dos professores, dos pais e da comunidade;
3 – exames nacionais nos 4º, 6º, 9º e 12º anos a todas as disciplinas e, anualmente, provas globais internas a todas as disciplinas, corrigidas cegamente;
4 – cada professor deve ter objectivos particulares por classe a cumprir, acordados entre ele e o director, perante os quais, e apenas por eles, deverá ser avaliado anualmente, contribuindo, assim, para o cumprimento dos objectivos gerais do director, i.e., da escola.
Depois desta merda implementada então, porra, façam lá as geniais reformas vindas da cadeia de comando, pois já existirão condições locais para que elas possam ser implementadas e quem as poderá executar – professores, pais e alunos.
Não há pachorra! Comecem o edifício pelos alicerces!!!
Publicado por Carlos Araújo Alves em outubro 16, 2006 11:19 AM
Comentários
Concordo plenamente com os pontos: 1, 3 e 4. Tenho dúvidas quanto ao 2.
Mas não é nada disto que preocupa a ministra. O objectivo dela é um sistema em que poupe dinheiro pagando menos, desvinculando, reformando mais tarde e com metade da reforma. Todo o resto é poeira.
Publicado por: João Norte às outubro 16, 2006 04:22 PM
É precisamente no ponto 2, estimado João Norte, que deveria ser dedicado mais tempo e ponderação.
Em todas as profissões há a tendência para assumir que a atribuição da avaliação e controlo a terceiros é uma falta de respeito e de creditação profissional.
Eu não vejo as coisas dessa forma, bem pelo contrário!
A separação de poderes é que tem (para o bem e para o mal desde Montesquieu) sustentado a democracia tal qual a conhecemos. Nas escolas a sua aplicabilidade enquadra-se no âmbito da gestão de equipas - a partilha de responsabilidades para que cada qual conheça e exerça a sua função em prol do colectivo.
Se isto fosse explicado aos professores, julgo que eles entenderiam a medida como um método de gestão e não (porque não o é) uma desconfiança ou menosprezo do seu trabalho.
O que parece ser cada vez mais difícil acontecer é explicar aos afetados o alcance das medidas que os governos pretendem implementar.
Se será esta a preocupação da ministra? Não sei, francamente até acho que a ministra não a tomou esta medida para não melindrar os professores tendo-se, assim, virado o feitiço contra o feiticeiro.
Abraço e obrigado pelo comentário.
Publicado por: Carlos a.a. às outubro 16, 2006 09:10 PM
Grande!
Um abraço,
Francisco Nunes
Publicado por: Planície Heróica às outubro 17, 2006 12:14 PM
Obrigado, Francisco, mas..., grande..., assim muito grande...?
Abraço
Publicado por: Carlos a.a. às outubro 17, 2006 02:20 PM
Muito grande, mesmo. Concordo contigo em quase tudo o que dizes. Acrescentar-lhe-ia em abono da tua opinião, a propósito da democracia nas escolas, o facto de a avaliação dos funcionários, de 1 a 10 rondar sempre as duas mãos cheias...
Discordo da ideia ultrapassada de que há bons selvagens. Mas isso já o disse subliminarmente lá na minha 'casota'.
Quanto à discussão da 'malha fina' daquilo que dizes, desculpar-me-ás mas não posso, nem quero, entrar em pormenores na praça pública. Não me importava, apesar de tudo, de as as discutir contigo atrás de um 'copo de conversa'.
Já agora: A tua posta é 'grande' não pela quantidade de letras tecladas, mas pela qualidade de colocar o dedo em quase todas as feridas do Ensino de uma forma muito apropriada. Os temas (feridas) que não abordaste são difíceis de entender por quem está fora do Ensino (não é totalmente o teu caso...) e muito susceptíveis a interpretações demasiado dúbias para quem não domina e para quem não sente estas questões (estatuto social do professor, enquadramento socioprofissional, sociocultural e socioeconómico dos 'nossos' garotos, primado dos objectivos pedagógicos sobre os objectivos científicos e funcionais...)
Um abraço,
Francisco Nunes
Um abraço,
Francisco Nunes
Publicado por: Planície Heróica às outubro 17, 2006 04:35 PM
Os problemas neste país residem exactamente no facto de começarem sempre a erguer os edifícios pelo telhado, por isso eles estarem constantemente a ruir. Começar pelos alicerces só seria possível se os responsáveis tivessem uma noção correcta da edificação. Mas como têm apenas algumas luzes isso não chega. Embora tenhamos de ter em linha de conta que os lobbies, sim que neste sector também existem, são muito dificeis de combater. Aquele abraço amigo Carlos
Publicado por: congeminacoes às outubro 17, 2006 04:42 PM
Francisco
Olha que eu babo o teclado todo...
Obrigado, mais uma vez pelas tuas palavras, sabendo as razões porque não podes aprofundar mais o assunto.
A questão que abordas, de estar ou não por dentro ou por fora, não tem tanto a ver com proximidade; está muito mais relacionada com o "pôr-mo-nos na pele dos outros".
Esta faceta é essencial para se colocar qualquer projecto em marcha! Já viste o que seria de uma empresa que se atrevesse a não conhecer os colaboradores que estão no terreno e os clientes? Uma tontice, não seria?
A experiência empresarial faz muita falta a quem governa e, de uma forma geral, a quem tem poder.
Abraço
Amigo Raúl
Começar pelos alicerces é até mais fácil, já que, na maioria dos casos apenas exige pequenas mudanças.
O problema é a tendência de pretender fazer grandes projectos como se os anteriores de nada valessem e com eles nada se aprendesse.
Há que, antes de mudar tudo, saber se o que está em vigor funciona, porque é que não funciona e que se poderá fazer para funcionar.
Abraço e obrigado.
Publicado por: Carlos a.a. às outubro 18, 2006 10:27 AM